  Este  um livro sobre mulheres. Mulheres que amam, que amaram e que querem amar.
  Que projetam anseios, choram reminiscncia, buscam a plenitude. Mulheres prenhes de graa, absolutamente reais - ainda que fictcias, concebidas pela escrita sensvel
de um homem. Esta seleo de contos inditos representa um mergulho no oceano de inquietaes e aspiraes femininas, do qual o autor emerge trazendo  tona personagens
e narrativa que giram em torno da graa de ser mulher. Depois do xito arrebatador de Cartas entre Amigos, escrito em parceria com Gabriel Chalita, Mulheres Cheias 
de Graa  mais uma obra que vem consagrar Fbio de Melo na posio de um dos escritores mais lidos do pas.

  Mulheres Cheias de Graa
   ... ou porque nos fazem rir, ou porque so sobrenaturais.
  
  Fbio de Melo
  Mulheres de Graa

  Sumrio
  Amor profiltico ..................................... 11  
  A compulsiva .......................................... 17
  A convertida............................................. 27
  Amor que Amansa................................... 35
  Bilhetes e retalhos.................................... 45
  Uma mulher de palavra ........................... 55 
  Miudezas ................................................. 63    
  Fotografia ................................................ 69       
  O desacato da tarde .................................... 77
  Os amores e suas incongruncias ............... 87
  A mulher que no sabia esquecer ............... 95
  A mulher e a velhice ..................................103
  Felicidades imprprias ...............................109
  A dona da funerria ................................... 119
  A mulher e o tempo ....................................125
  A chamin .................................................. 131
  A justiceira ................................................. 139
  Da vida, alheia ........................................... 147
  Do nome infeliz  infelicidade do nome .... 155
  Amor inacabado ........................................ 163
  A sacerdotisa ............................................. 171
  A lei do amor ............................................ 179
  Alma em desordem ................................... 187
  Cheia de graa .......................................... 195

  Dedicatria
  Para Beth Lagardre, que com graa e leveza acendeu 21 estrela dentro de mim.

  Agradecimentos
  Teca, pela graa que seu cuidado me empresta.
  Tnia, pela fraternidade que a voz do vento canta.
  Marina Rosa Bastos, por me inspirar tantas histrias.
  Lourdinha Fonseca, pela Graa divina que sua graa me recorda.
  Cidinha Zarzur, por carregar os meus fardos.
  Maringela Baffi, pelo bem que voc me faz.
  Dona Maria, pela simplicidade que me faz voltar.

  Amor profiltico
  Escutou a palavra e notou que era bonita. - Profiltico - repetiu. Sussurrava. Prolongava as slabas. No queria se desprender do gozo. Agia como se fosse escritora 
e naquele momento estivesse se exercitando no oficio de investigar a riqueza semntica do vocbulo.
  "Profiltico, profiltico." Os olhos fechados pareciam procurar a direo das origens do mundo, dando-me a impresso de que aquela palavra recm-descoberta possua 
o poder de lhe devolver ao estado primeiro das coisas, ligando-a novamente a um paraso perdido, findado, porque esquecido.
  O rosto testemunhava o esprito compungido. A fala mansa e repetida sem ansiedade era uma espcie de prece, palavra que ordena, direciona, redime.
  Nesse mpeto de encantamento e paixo pela palavra, ela resolveu concluir, ainda que absorta em inexata compreenso: - O amor que sinto por Jorge  profiltico. 
- Repetiu a frase como se quisesse investigar os desdobramentos prticos daquele amor e quem sabe, assim, compreender o significado da palavra.
  A doura na voz emoldurava a expresso. Conferia-lhe um contexto de amabilidade nunca antes alcanado por outro vocbulo. A palavra a atingia e a afetava de maneira 
inesperada e surpreendente.
  Eu tambm escutei sem entender.Mergulhei no mistrio do desconhecido termo e no o quis por sue lgica. Acolhi a fora sonora e musical, e s. No tive coragem 
de perguntar, nem tampouco procurar saber o que significava "profiltico".Temia atentar contra a sacralidade do termo. Abracei a sonoridade e a assumi como verdade.
  Amor profiltico deve ser um amor cheio de profundidade, empenho, lisura. Manhs de  inverno e luz tmida de lamparina acesa. Mulher  beira de um fogo alimentado 
de lenha seca e caf deslizando suavemente pelo coador de pano encardido.
   A vida de um amor profiltico deve ser assim. Coisas lindas costurando as feiuras do dia, cobrindo de bordados cheios de mincias os avessos e suas ranhuras. 
Amor que
recobre de brilho a estrutura opaca da existncia e transforma o cotidiano da vida num acontecimento nico, fato que no merece cair no esquecimento.
  Profiltico deve ser coisa bonita demais para que a gente posse compreender. Amor de romance, bblico, fiel. Amor de Oseias, o profeta que, depois de trado, encontrou 
a traidora sendo negociada numa feira de escravos. O amor profiltico o encorajou a compr-la. Reassumiu como esposa a traidora perdoada e,         sem muitas perguntas 
e respostas, levou de volta para casa aquela que do corao nunca partira. Histria mais linda neste mundo nunca houve.
  As religies nos ensinam que o nome de Deus  impronuncivel. O motivo  simples. Ele  grande demais para caber num conceito. Decido, mesmo sem saber teologizar: 
Deus  profiltico.  palavra que no aprisiono.  mistrio que prevalece a me sugerir belezas, bondades e oblaes.
  O amor  uma experincia religiosa. Disso no tenho dvida. Heleonora ama com amor profiltico. Amor que no cabe no tempo. Amor to grande que a palavra no sabe 
dizer, assim como o nome de Deus. 
  "Profiltico" tem uma sonoridade que aprecio, assim como aprecia tambm Heleonora, a ponto de adjetivar com ela o seu amor por Jorge. Ela sabe das coisas. O empenho 
do amante deve estar em nunca esgotar o mistrio da criatura amada. Sobre isso, intuo O amor no esgota o que ama. O amor sobrevive de saberes e no saberes. O que 
olho ainda no vejo. Olho com descanso de pausa, porque sei que o mistrio ainda vai me sorrir. Eu espero.
  As miudezas esparramadas pelos cantos de minhas lembranas me conduzem ao altar de minhas predilees. A memria  o campo do amor preservado.  nela que a autoridade 
do discurso humano encontra a raiz mais sustentadora.
  O que falo de mim  fruto do que memorizei sobre o vivido. Por isso no posso prever o futuro. Para o futuro ainda sou surpresa, assim como o amado  para o amante. 
Sou o passado passando, ficando, misturando e congregando as funes midas do presente, futurando minhas causas e esperanas.
  A vida  profiltica. Afirmo sem saber. Afirmo sentindo. Tenho medo de consultar o dicionrio e descobrir que "profiltico" no significa o que sinto quando digo. 
Esta falta de conexo me faria mergulhar na dor profunda de no encontrar o que procuro. "Profiltico"  uma palavra onde repouso o medo de morrer sozinha. Bero 
onde debruo minha orfandade de amor de homem e a fao dormir. No me importa o significado que o autor decidiu registrar. Ele no escutou a palavra no contexto 
da frase de  Heleonora. Ele no viu o seu amor por Jorge. No presenciou o tremor dos lbios no momento da confisso.
  Ele no sentiu o que senti. No acreditou no que acreditei porque no ouviu a voz to crente da certeza que afirmava. O dicionrio no  nada perto do amor que 
sentimos. Os termos esto todos l, mas a vida, a verdadeira vida, est todinha aqui, neste espao de no saber, espao de no saber, neste espao de s sentir, 
ignorante, mas vivo.
  Eu sou a vida dos vocbulos.  em mim que eles se desdobram. Heleonora  profiltica, assim como a palavra, Ela nutre nas entranhas de sua alma a soluo de que 
o mundo precisa - o amor. A espera por Jorge; os lenis brancos sendo do quarados sobre a pedra da caixa-d'agua; a vassoura de piaava levantando poeira, anunciando 
que a ordem das coisas ainda  possvel; tudo  profiltico. O amor, a parte, o meio, a totalidade. O todo do mundo se amontoando nos mveis simples da sala de estar, 
lugar onde nunca algum est.
  Na parede, o quadro e seu silencio a segredar os gritos do passado. O amor conjugado no dia escolhido, entre tantos. O casamento mais pobre do mundo.
  Nenhum luxo, alm do amor entre os dois. Um bolinho de farinha de trigo recheado com calda de rapadura, e s. Noiva com vestidinho branco, tecido ralo de to surrado, 
mas resguardando um corpo impregnado de felicidade nobre. Nenhuma grinalda na cabea. Apenas o adorno de umas florinhas midas, mas viosas, recolhidas por gente 
que sabe apreciar as coisas bonitas que o mundo nos oferece sem preo.
  O noivo e seu terno de defunto. Soluo possvel. So roupas que chegam entulhadas em sacos de linhagem. Doaes feitas por pessoas desconhecidas. Caridade que 
viaja  distncias e que desconhece a serventia do que e doado.
  Linalva, do centro assistencial, fez questo de recolher o terno e entreg-lo pessoalmente ao Jorge. Nenhum arranjo foi feito. Os comprimentos no cumprem as obrigaes. 
Ou porque sobram, ou porque faltam. Mas o que no quadro no falta  o sorriso que confirma o sacramento,  o amor profiltico entre Heleonora e Jorge, a aura  sobrenatural 
que repousa sobre a imagem e que o tempo no domina. A vida  assim. O que a matria no supre o amor ajeita.
  A vida vale a pena. Eu sei. O quadro na parede no se esquece de me dizer tudo isso. J valeu ter vivido Para ver esta pobreza de perto e saber que ela est costurada 
por um amor que tem nome esquisito. Encontrar gente feliz renova minha f em Deus.

  A compulsiva
  O doutor Sucupira me disse que preciso curar meu desejo de compras. Eu o olhei com desprezo e j sa louca para comprar um vaso de Murano igualzinho ao que estava 
na sala de espera do seu consultrio.
  Desaforo. Ele no  o meu psicanalista. A ele cabe o cuidado de minhas narinas, e nada mais. Acompanha-me desde a minha juventude. Fui procur-lo com o nico objetivo 
de desobstruir minhas vias areas. O assunto surgiu de repente. Ca na bobagem de dizer que j tinha em casa o remdio que ele havia recomendado, dispensando assim 
sua receita. Foi nessa hora que ele fez o comentrio infeliz.
  Atrevimento da parte dele. Nunca lhe dei liberdade para interferir na minha vida. Ele que me examinasse, e pronto. No tem nada que ficar bisbilhotando, palpitando 
na minha conduta. Sa de l irritadssima!
  Nunca considerei desordenados meus impulsos para aquisies.  fato normalssimo na vida humana a necessidade de renovar, vez em quando, o estoque de bens materiais.
  Lucilda me acusa constantemente de ser exagerada. Acha um absurdo eu comprar trs ou quatro pares de sapatos de uma nica vez, mesmo que para a compra no haja 
ocasies. Ela vive repetindo a mesma frase, como se fosse um mantra. Olha na minha cara por cima dos culos, despenca aquele beio e dispara: - Vai comprar pra qu?
  Outro dia, quando eu finalizava a compra de dois pares lindssimos que gritavam pelo meu nome na vitrine da Sapataria Central, ela caiu na infelicidade de me fazer 
a tal pergunta.Tomada de um dio mortal por ela, a ponto de querer comprar uma arma para fulmin-la em pblico, sem d nem piedade vociferei, para que todos os que 
estavam na loja pudessem me ouvir: - Para pendurar nas orelhas!
  Ah, tenha pacincia! Com tanto problema no mundo e ela cisma de querer investigar as causas que me levam a desejar alguns pares de sapatos? Alm do mais,  preciso 
que haja uma necessidade para eu querer levar os benditos da vitrine? J falei com ela, mas no resolveu. Lucilda precisa fazer terapia.  amarga demais da conta. 
H anos no a vejo sair para uma compra de roupas. Est sempre vestida do mesmo jeito. Aquela camiseta branca e sua eterna calca jeans, a mesma, desde que me entendo 
por gente. E, para completar a minha irritao, insiste em no tirar do corpo aquele colete de fotgrafo, verde militar, usando como justificativa o fato de ele 
ser muito prtico, devido aos inmeros bolsos que possui. Eu no aguento mais. Nossa amizade j est por um fio de cabelo; alias, um fio submetido ao duro processo 
qumico de uma escova progressiva. Fragilssimo.
  Conheci Lucilda na primeira escola. Sempre foi uma mulher sem grata. Nos tempos de menina, quando todas ns ostentvamos imensos laos de fitas nos cabelos, ela 
j apresentava com aqueles cabelinhos mirrados e sem brilho. Os culos pareciam fundos de garrafa. Para agravar ainda mais o quadro, era proprietria de uma merendeira 
com formato de elefante.Tudo aquilo lhe dava um aspecto terrvel!. Parecia um cachorro que havia cado da mudana. Ningum gostava de dividir absolutamente nada 
com ela.
  Acabou sobrando para mim. Desde aquele tempo carrego comigo esse fardo. Pobrezinha. Ela no descobriu o prazer que h nas aquisies, e por isso vive para reprovar 
minhas poucas iniciativas.
  Engraado, mas h compras que preciso confessar. No resisto. So to afetivas que as comparo a um a ato de adoo.  como se houvesse um vnculo entre o objeto 
e meu corao. J experimentei muito esse sentimento, sobretudo quando se trata de artigos de decorao.Tenho uma coleo imensa de porta-retratos.  coma se fossem 
meus filhos. Eu os esparramo pela casa e deixo que eles ocupem os espaos vazios.
  O interessante  que noutro dia experimentei pela primeira vez esse sentimento com uma pea de roupa. Nunca pensei que fosse me ocorrer um fato como esse, mas 
aconteceu. Eu estava dando uma olhadela nas vitrines da Galeria Escolstica quando me deparei com um vestido exposto num manequim. Fiquei olhando, olhando, quando 
percebi que dele saa uma voz que me dizia ternamente: - Mame, mame, mame. Leve-me pra casa! Eu nasci para ser seu! - Feches os olhos e escutei ainda mais forte 
o seu apelo. No pensei duas vezes. Entrei na loja e o adotei em dez vezes no carto, sem juros.
  Pode parecer uma loucura, mas a compra do vestido foi despertada por um instinto materno que tenho dentro de mim.
  Outra coisa a que no resisto  uma boa liquidao. Seja do que for. Semana passada eu estava na Farmcia do Merivaldo e, aps finalizar a compra de meus remdios 
para presso arterial, a mocinha do caixa me ofereceu um tubo de spray anti-inflamatrio. Olhou-me decidida e anunciou que estava na liquidao. Metade do preo! 
Fez questo de salientar.
  Parei e pensei: "Ah, meu Deus! No posso perder uma oportunidade dessa". No  sempre que se encontra um medicamento nessa pechincha. Pedi trs tubos.
  Ao chegar em casa. Manuelina me perguntou se eu estava com alguma contuso muscular, Para evitar que a prosa espichasse demais, eu j sentenciei: - No estou, 
mas posso ficar a qualquer momento! - Ela deu uma entortada na boca, balanou a cabea e falou entre os dentes: - A senhora no emenda!
  Manuelina  bobinha demais para entender o significado da expresso "oportunidade imperdvel". Trabalha conosco h mais de quarenta anos, mas  muito boal para 
que eu lhe diga os motivos daquela aquisio. Est acostumada a uma vida de restries. Jamais poderia entender que boas ocasies no podem ser perdidas.
  Sinto um arrepio na espinha toda vez que escuto a expresso "queima de estoque". Costumam ser maravilhosas.
  Os preos caem vertiginosamente. Eu me antecipo. Gosto de ser a primeira a me plantar na porta da loja. H muita coisa que sai praticamente de graa.
  Outro dia peguei uma situao de4ssas num mercado de utilidades domsticas. No havia nada de que eu realmente precisasse, mas fiz um grande estoque de presentes.; 
 sempre bom ter uma coisinha em casa, caso surja  uma situao que no nos permita uma sada rpida para comprar um presentinho.
  O doutor Viana, meu psicanalista, no v problema nenhum nesse meu impulso aparentemente consumista. No tem uma sesso que eu no leve um agradinho para ele. 
A gente conversa muito. J so doze anos de trabalho intenso que ele tem feito comigo.
  O doutor Viana no confessa isso aos outros pacientes, mas ele tambm  bem chegado numas compras. J me deu muitas dicas de lugares interessante. Ele  danado. 
Descobre cada bocada! Gosta muito de ir a So Paulo fazer as comprinhas dele. Trs ou quatro vezes por ano ele tambm d uma chegadinha em Miami para renovar os 
estoques.
  De vez em quando vejo a Valdirene desmarcando uma consulta na minha frente, enquanto espero na sala, dizendo que o Doutor Viana no poder atender porque estar 
num Congresso nos Estados Unidos. Ela me olha e, juntas, damos uma risadinha bem sem-vergonha. Congresso que nada! Ele vai  se esbaldar nas liquidaes imperdveis 
que os gringos fazem.
  Essas extravagncia j no posso fazer. Quem me dera! Meu poder aquisitivo no me permite. O mximo que fao e dar uma chegadinha no Paraguai uma vez por ano. 
Quase morro no meio daquela confuso. J cheguei a sofrer uma taquicardia de tanto nervoso que senti. E muita coisa para to pouco tempo. um lugar daqueles merece 
no mnimo uns quatro dias para set bem explorado.
  O bom e que o doutor Viana me conta tudo o que faz l no exterior. Horrio no nos falta. Fao terapia duas vezes por semana. Ele me fala de algumas promoes 
em que s acredito porque ele me mostra todas as aquisies com as respectivas etiquetas.
  Assim que chega de viagem, faz questo de levar duas ou trs malas para o consultrio e me mostra tudinho. Fico abismada de ver a bagatela que ele paga nos relgios 
que compra por l.
  O doutor Viana  espertssimo.Vai s com a roupa do corpo e volta trazendo uma bagagem imensa de novidades. Fico at comichando de tanta vontade de abrir mala 
por mala e descobrir o cheiro das lojas que fica nas mercadorias.
   to sedutor o aroma de um produto novo! Boas lojas esto sempre perfumadas. Na Alameda Felix Albuquerque esta localizada a bonita loja de enxovais de Marieta 
Clemncia.  tradicionalssima.Trabalha com o que h de mais sofisticado em artigos de cama, mesa e banho. Sempre que posso dou uma espichadinha at l. Corro os 
olhos em tudo e sempre saio com alguma coisinha. O interessante e que outro dia comentei com a mocinha atendente que a loja estava perfumadssima, e ela j se antecipou, 
dizendo-me:
  - Se a senhora quiser, poder comprar o cheiro da loja! - Dito e feito. Comprei cinco frascos do tal perfume.
De vez em quando borrifo a essncia no meu quarto e durmo com a doce sensao de que fao parte da vitrine da loja, deitada naquela cama suntuosa, envolvida nos 
lenis brancos de oitocentos fios. Um luxo.
  Lucrecia, minha irm mais velha, tambm acha que sou um pouquinho exagerada quando compro. Discordo. Sou equilibradssima. E foi a terapia do doutor Viana que 
me deixou assim. Melhorei demais depois que comecei.
  Posso at admitir que, antes, cometia um ou outro exagero. O que me expunha muito diante de todos era minha indeciso. Eu tinha mania de comprar uma mesma roupa 
em seis, sete cores diferentes. Sempre tive muita dificuldade de escolher. Diante da divida, levava todas. Hoje, no. Levo no mximo, no mximo, trs, uma de cada 
cor.
  Mas minha entrada na terapia no foi por causa de roupas. O fim da picada foi a compra de um jogo de sof. Sa para fazer a aquisio objetivando completar um 
espao na sala que sugeria um jogo de estofados. Fiquei muito dividida entre o preto e o marrom. Na dvida, levei os dois. O problema  que no havia espao para 
ambos.
  Na hora da entrega foi aquela confuso. Somos trs irms e moramos juntas, todas solteiras: eu, Lucrcia e Lolita. Os entregadores ajeitaram um jogo no espao 
que existia e depois um deles me fulminou com a pergunta: - Coloco o outro onde, minha senhora? - Fiquei gelada. Lucrcia se apressou em perguntar com aquela voz 
rouca de madre superiora:- Que outro? -Tentei explicar minha dvida, mas no tive muito sucesso. Lucrcia ficou desequilibrada de tanto dio. Atacou-me com palavras 
durssima.
  Por pouco no me arremessou a xcara com o ch que estava tomando no momento da entrega. Lolita ficou to abalada que perdeu os sentidos. A sorte  que Manuelina 
ainda estava em casa e se prontificou a lhe trazer uma gua com acar. O problema  que diante da confuso armada os rapazes descarregaram o bendito segundo jogo 
na entrada da casa e se mandaram.
  No gosto nem de me lembrar daquele dia. Foi no meio daquela confuso horrvel que as duas me fizeram assinar um documento em que eu concordava em ser encaminhada 
a um especialista. Na semana seguinte eu j estava nas mos do doutor Viana, sendo muito bem cuidada por ele.
  Sempre achei que Lucrcia tambm precisaria fazer um tratamento com ele. Por razes diferentes,  claro.Vive tensa, aflita. Parece um fio de alta tenso. Diz o 
tempo todo que  acumula a soma de vinte e dois anos e trinta e seis dias sem saber o que  uma noite bem-dormida. Lucrcia tem obsesso por nmeros. Sabe com exatido 
a quantidade de noites que no dorme. Disso no posso me queixar. Nunca precisei tomar um comprimido para dormir. O mximo que j me ocorreu, sobretudo em ocasies 
de viagens,  um pouquinho de sono pensando em uma ou outra coisinha que vi alguma vitrine e no comprei. Fico angustiada at amanhecer o dia. O mximo que o doutor 
Viana j me receitou foi um chazinho de erva-doce para acalmar os nervos em situaes  como essa.
  Outra pessoa que tambm costuma dar muito palpite em minha vida  o padre  Teodoro. Mas com ele no me importo. Ele me d broncas, mas reconhece a minha busca 
pelo equilbrio. Ele  muito amigo de Lolita e est sempre em nossa casa para o caf da tarde. As meninas adoram contar minhas histria para ele.
  Padre Teodoro muito enrgico comigo. Quando v que estou exagerando em alguma coisa, j me alerta com aquele bigode bravo que ele tem  no meio da cara e me fala 
com aquela voz de trovo, arrastando a palavra: - Olha! - Parece um bode velho.
  Engraado, mas sua presena me faz bem. Ele me recorda muito as maneiras de papai. O jeito de estar quieto, presente. O gosto pelas torradas temperadas com ervas 
e, sobretudo, a maneira terna com que me olhava. Toda tarde ele est conosco. Quando no vem, sinto a sua falta, Ele  como se fosse da famlia.
  Outro dia Lolita nos confessou que estava muito aflita. Disse que o bispo estava querendo transferir o pobre do velho para outra cidade. Achei um absurdo essa 
atitude de Dom Rivelino. Foi ento que, movida por um desejo imenso de impedir o acontecimento, resolvi fazer a pergunta que Lolita considerou absurda.
  - Se a gente chegar um dinheiro no bispo, ele no vende o padre Teodoro pra gente?
  Lucrcia me fulminou com os Olhos.

  A convertida
  Eram quase duas horas da tarde quando o extremo da bondade me atingiu. O sol escaldava a cidade sem nenhuma piedade quando senti um arrepio me subindo pela pernas. 
Um desejo de caridade me assanhou por inteira. Desejo estranhssimo, incompreensvel, ilgico. Desejo de me oferecer para uma faxina completa na tapera asquerosa 
de Manoel Gara.
  Fosse um banho no recm-nascido de Norma Congado e eu entenderia o meu impulso. Caridade de vez em quando faz bem, mas nada que beire a insanidade.
  Uma coisa e sair de casa para uma caridade mediana na escala primorosa das misericrdias. Outra coisa  me prestar ao absurdo de enfrentar o mau cheiro daquele 
esconderijo. Ah, no, isso no. Um acontecimento desses sugere que eu estaria sendo vtima de um desequilbrio psicolgico.
  Respirei fundo e o desejo persistiu.A imagem era viva. O vestido simples, talho de tecido pobre, o que nunca tive; o desinfetante de eucalipto, vassouras, rodos 
e baldes, e eu trabalhando como se fosse uma escrava daquele nojento.
  - Meu Deus! - rezei mergulhada em pavor! Assombrada, olhei-me no espelho da penteadeira do quarto. Contemplei-me com demora com o intuito de distrair-me daquele 
mpeto de samaritanismo. "Um batom nos lbios e quem sabe esse esprito de freira abnegada me abandone", pensei. 
  Absorta no devaneio do instante, observei que, no espelho onde eu me via, existia  outro reflexo alm do meu. Um homem desprovido de face. Espectro que me fez 
relembra. os medos da infncia. O frio na espinha, a pupila dilatada, o tremor nas mos. O medo tem o poder de ossificar o que mente imagina. Dito e feito. O espectro 
ganhou contornos, bochechas rosadas e sorriu para mim. Era ele. Manoel Gara.
  O infeliz saiu da tapera, invadiu minha casa e sentou-se ao meu lado. O cheiro veio junto. Imediatamente eu me desfiz daquela cena pavorosa com o gesto de me levantar. 
Sem o espectro no espelho, mas com o cheiro ainda atuante em meu nariz, dediquei-me a  borrifar uma gua-de-colnia no quarto ainda fechado. Abri as janelas, dei 
um n nas cortinas e acendi uma vela sem razes religiosas.
  Queria voltar ao mundo de cotidiano requintado. O caf da manha, sempre acompanhado de uma ou outra amiga do Lions; o almoo pouco calrico; o ch da tarde; a 
conversa que nos atualizava dos ltimos costumes finos... De nada adiantou. Mais uma vez, ele, Manoel Gara, agora com as calcas arriadas, tal qual na cena que marcara 
minha infncia, por ocasio de uma        visita escolar ao servio de tratamento e abastecimento de gua de Trindade de Freitas, quando passvamos pela porta de 
sua tapera, passagem inevitvel para quem queria chegar ao destino que era o nosso. 
  O velho asqueroso apareceu a porta com as calas na altura dos joelhos. Uma cena para nunca mais ser esquecida.
  -Vista essas calas agora, seu imundo nojento, e saia imediatamente da minha casa! - Quando dei por mim j havia gritado. Um grito no vazio no quarto. Um grito 
real, tentando desfazer a iluso, a projeo da existncia. De nada adiantou. O ordinrio continuava com as calas arriadas.
  Corri para a cozinha. Ele foi junto. Mexi na geladeira. Reorganizei os ovos para que ficassem todos com as pontas viradas para cima. Arrumar os desajustes do concreto 
parece ter o poder de colocar em ordem os desajustes da cabea. Em vo, l estava ele, sentado no balco de mrmore da pia.
  - Desce dai, coisa feia! - insisti em gritar no vazio. Ele sorriu ainda mais. Os dentes cariados, os alicerces abarrotados de trtaro, tudo agravando ainda mais 
minha repulsa.
  Mas no avesso da rejeio havia outro movimento. A caridade persistia em mim. Embora eu tivesse desejo de atirar-lhe um pote de pssego em calda, no mesmo instante, 
no mesmo alinhavo desse desejo, estava a minha vontade de envolv-lo num abrao de devoluo. Devolver-lhe a brancura dos dentes, a limpeza da pele, o cuidado que 
certamente sua me lhe devotou na primeira infncia.
  Por mais que me parecesse improvvel, Manoel Gara foi criana um dia. No adulto repulsivo morava uma criana bonita, abandonada, necessitando ser cuidada. A caridade 
me pedia que eu reconhecesse naquela carne ftida o menino recm-nascido que merecia ser posto nos braos.
  Ele ainda sorria. Parecia ler meus pensamentos. Na durao ser de seu sorriso durava tambm o meu desejo de ser, ainda que por um dia, sua empregada domestica. 
Indignada com tanta sujeira, despejaria litros e litros de gua sanitria pelos cmodos da tapera, como se quisesse exterminar todas as bactrias do mundo. Arear 
panelas; abrir as janelas; lavar as paredes, dar uma demo de tinta em tudo; jogar fora as imundcies acumuladas. 
  Eu seria a nica pessoa a desafiar a solido daquele coitado, e nisso estava a fora de meu impulso. Roupas dc cama novas, limpas, cheirando a cuidado. Perfumadores 
de ambiente, cheiro de lavanda no banheiro. Tudo muito pobre e simples, mas impecvel de tanta limpeza. 
  Eu, como nunca fui vista. Bobes na cabea, chinelos franciscanos e baldes nas mos. Naquele instante, no mesmo em que eu me imaginava assim, ocorreu-me a certeza 
loucura. Procuraria o doutor Lamartine na primeira hora do atendimento da segunda-feira. Algo muito serio devia estar acontecendo comigo. Recordei-me da loucura 
dos santos. Gente que se apaixonou pelos pobres e que nunca mais conseguiu reassumir a vida antiga de luxos e prazeres. Mas eu no queria isso pra mim. Uma coisa 
e ter o corao bom, sensvel as necessidades dos mais pobres. Outra coisa e abdicar conforto que se tem para it arear pandas de mendigo. 
  Foi ento que minha mente se iluminou com um detalhe importante para a compreenso de meu quadro. Recordei-me de que irm Georgina havia me ensinado uma jaculatria 
cujo teor era o desejo de humildade. J fazia um bom tempo que eu a repetia religiosamente, todos os dias ao me deitar e ao me levantar. 
  "Ai, meu Deus, ser que minha reza foi ouvida?", pensei, apreensiva. Estaria eu passando por um processo de converso tal qual passou Francisco de Assis, que, 
impulsionado por um desejo de caridade, abandonou as riquezas e foi morar no meio dos leprosos? Ser que o mesmo se daria comigo? Naquele mesmo instante implorei 
a Deus que no! Eu no queria isso para mina. E, se em algum momento da vida pedi um absurdo desses, que Ele reconsiderasse.
  Ser que converso  essa sensao de mudana sbita de personalidade, como se um invasor estivesse ocupando os meus territrios? No sei. Desfiz-me de minha teologia 
primaria e vi que naquela hora o infeliz do Manoel Gara enfiava o dedo no pote de doce de leite como se fosse uma criana descobrindo o mundo. Sem foras, deixei 
que ele fizesse o seu descobrimento. Apenas me ocorreu a certeza de que aquele doce azedaria num prazo de vinte e quatro horas.
  Ser que eu estava sendo invadida por um esprito de freira? "Ai, meu Deus! Casta eu j sou, mas no estou disposta a abrir mo de minhas vaidades." No suportaria 
viver sempre vestida num mesmo modelo. No haveria expectativas nas minhas chegadas. Uma freira anda sempre com a mesma roupa.
  No, isso eu no poderia suportar. E os meus cabelos? O que eu diria  Ordlia Lins? Que no iria mais pint-los? O que diria as minhas companheiras? Que no iria 
mais aos jantares do Lions?
  No, definitivamente eu no queria viver converso nenhuma. Sem meus colares, brincos e jantares prefiro morrer. "Quero que v s favas Manoel Gara, com todos 
os pobres do mundo e esse pote de doce."
  - Sai da! gritei, aflita. - Tira esse dedo imundo do meu doce! Eu no te suporto. Desconfia e vai embora daqui! - completei o grito de minha aflio.
  Como se no entendesse minha fala, ele continua a sorrir. Parecia um estrangeiro que, diante do grito que repreende, no se aflige porque desconhece o significado. 
  Tive pena dele. Com a pena, tive vontade de lavar sua cabea. Desembaraar-lhe os cabelos com meu creme de pentear. Seria um prazer imenso ver aqueles fios se 
desprendendo, saindo da condio de pacote nico.
  "Valha-me Deus neste tormento! um litro de  xampu seria pouco para uma profilaxia benfeita na cabea dessa criatura", pensei, submersa em desesperana. 
  Os dentes.Ai, meu Deus, os dentes! O que faria para resolver a situao daquela arcada to destruda? Nunca vira escova vida! Meu mpeto foi de arrancar dente 
por dente, ali mesmo, na cozinha. Mas eu no teria forcas para me aproximar daquela boca. 
  O doutor Guilherme, homem fino, dentista renomado, no sentaria Manoel Gara em sua cadeira sempre to bem frequentada. Certamente ele se recusaria a fazer essa 
loucura. O jeito seria lev-lo ao servio de atendimento pblico em Carmo da Mata. Sairamos cedo, quando o dia ainda no tivesse derramado claridade. Suportaria 
o cheiro dentro do carro, e l pelas oito horas da manh ele j estaria atendido e banguela. 
  Enquanto eu me consumia nessa preocupao com sua sade bucal, o infeliz continuava sentado na pia, enfiando o dedo no pote de doce. Gritei mais uma vez, sabendo 
que de nada adiantaria. - Cria tipo, coisa feia!Vai limpar esse nariz. Infeliz! - Subitamente, fui tomada por um arrependimento quase insuportvel. Desejo de jogar-me 
aos seus ps e dispensar-lhe a mesma ateno que a pecadora dispensara a Jesus, segundo o relato bblico. Banhar-lhe         os ps com minhas lgrimas, enxug-los 
com os cabelos e depois ungi-los com o mais caro de meus perfumes. Mas eu jamais poderia ser essa mulher. Meus cabelos so curtos; e o mais agravante: tenho nojo 
de frieiras.
  Foi bom pensar assim. No h desejo mstico que no se dissolva diante de unhas imundas e necessitadas de poda. Eu quero  um ch de hortel com torradas aquecidas. 
Muito melhor  viver mantendo distncia das misrias do mundo. Melhor  pagar o dzimo e deixar que os outros concretizem a caridade por mim. Financiar a caridade 
j  um jeito de amar os pobres. Chega. Quero minha cama limpa e minha alma orgulhosa de volta. 
   minha Nossa Senhora! Esquea tudo o que lhe pedi naquelas jaculatrias. Era tudo mentira minha. Nunca quis ser humilde. E se pedi para ser foi por descuido, 
foi por no ter o que rezar. Eu nem sabia ao certo o que estava pedindo. No quero essa intrusa caridosa me invadindo as carnes. Renuncio, em nome de Jesus, a essa 
converso absurda que estou percebendo em minha alma. Quero  ser m. Quero Manoel Graa longe de minha casa, assim como foi durante a vida inteira. 
   meu Pai! Ser que preciso de um exorcismo? Mas o exorcismo  uma prtica que expulsa demnios. Ser que h uma frmula capaz de expulsar definitivamente esse 
esprito quer me conduzir a esse estado de candura e santidade?
   meu Deus! Tende piedade de mim! Desconvertei a minha alma para que eu volte ao prazer de minhas antigas alegrias! E, se assim o fizerdes, prometo nunca mais 
abrir meus lbios para vos solicitar que me faais santa!

  Amor que amansa
  Amor que  amor amansa. Descansa na fronha os artifcios da bravura, retira as armaduras, corta unhas em dias de chuva e faz vir  luz palavras macias que no 
combinam com bigodes.
  Mulher que sabe o que quer no se dobra, mas redobra o cuidado pra no virar quase homem, esquecer o que sabe sobre a ancestral conduta que lhe permite administrar 
o mundo mesmo sem parecer que o faz.
  Mulher que  mulher faz da fragilidade o seu escudo. Seu grito de guerra  manso.  no seu olhar que descansa o remanso do mundo.
  A comadre Efignia  um caso assim. Munida de invejvel, soube muito bem utilizar o poder que os seios e ovrios lhe atriburam.
  Quando chegou em sua vida, Amncio era portador de um temperamento  insuportvel. Alm da pssima mania de cuspir compulsivamente pelos quatro cantos do mundo, 
era incapaz de um gesto de carinho em pblico. Criado no mais rigoroso sistema de famlia, modelo humano que ensina ao homem a dura misso de comandar o mundo, Amncio 
era uma discrepncia absoluta com o prprio nome. Nada de manso, nada de termo, nada de polido.
  Em dias de sofrimento, a expresso sisuda. Em dias de alegria, a expresso de indiferena. Um estoico na conduta. Rosto que no se entregava ao movimento dos msculos 
que nos emprestam expresses amorosas, humanas, viventes.
  Ningum conseguia entender a opo de Efignia. Parentes gritavam, indignados.   Manifestaes pblicas de repdio pela aparente indigncia amorosa a que era submetida 
nossa meiga e prendada menina de olhos ternos e, por acrscimo, azuis. 
  Eu mesma quis interferir naquela relao. Argumentei com todos os meus recursos de arte dramtica que o sofrimento de comadre Efignia no valia o conforto daquela 
casa bem situada.
  Rua Oscar de Oliveira Lima, divisa com o frum, frente para a praa da matriz, esquina ajardinada, frondosa, iluminada. Casa de miolo requintado. Mveis de jacarand, 
armrios de sucupira, um outro detalhe em imbuia, azulejos portugueses, cristais expostos por todos os cantos. Tudo muito sofisticado, mas triste, tristssimo, sobretudo 
quando o nada manso Amncio penetrava os umbrais com sua presena torpe e indigesta. 
  A comadre Efignia limitou-se a franzir a testa. Eu sabia muito bem o que o gesto significava. Desde criana, quando a vida ainda nos permitia banhos de rio que 
prolongavam nosso direito de sermos pequenas, ao passo que as bonecas nos antecipavam a maternidade, a testa franzida representava reprovao.
  Mas a verdade no demorou a amanhecer em nossos quintais. O tempo foi respondendo sem anseios. Alias, o tempo responde a tudo. O fato  que mais tarde pude intuir 
que comadre trabalhava no silncio, assim como a aranha faz crescer a sua teia.
  Os indcios do trabalho foram se avolumando.Vez ou outra, eu flagrava Amncio cochichando ao ouvido da comadre - gesto inadmissvel para um descendente da  famlia 
Astorga Camargo.
  A princpio, pensei que pudesse ser um recado lembrado, notcia que no pode esperar o bater do porto da rua, mas no. O riso de ambos ajudou-me a intuir a verdade: 
Amncio estava mudando. Assim como o domador domestica sua fera, a comadre realizava a proeza de amansar Amncio.
  Atado a um lao invisvel que tinha as pontas nas mos de frgil Efignia, o macho aparentemente indomvel se aninhava como se fosse um gatinho aos ps da domadora.
  O cochicho me surpreendeu. O gesto recordava-me os amantes do cinema. O riso cmplice, os olhares indefesos, seguros de que poderiam expressar os limites sem o 
risco da condio de vtima.
  A vida segredada, a palavra prxima, quase depositada na cavidade do ouvido. O sussurro, a fala particular, coisas que aos romnticos pertencem.
  Quis unir aquela forma de dizer ao modelo que prevalece na linhagem dos machos. Manoel Rodrigues, capito Rodarte Freitas, Ulisses de Almeida Prado. Homens com 
os quais Amncio dividia tardes inteiras negociando gado, testando arreios, discutindo investimentos, coisas que no combinam com conversas ao p do ouvido, manifestaes 
pblicas de carinho. Esses homens, reconhecidos homens, famosos pela bravura e pelo poder que a riqueza lhes trouxera, jamais seriam capazes de deixar fluir a fragilidade 
que o amor demonstra Para eles o amor  quase uma vergonha. Forma de perder a hombridade, de tornarem-se vulnerveis, fracos.
  Suas mulheres, submissas mulheres, acostumaram-se s obrigaes de alcova, e s. Mos rudes e gestos curtos - o amor na submisso no tem delonga. O beijo no 
existe, as mos no se entrelaam, cmplices. O que h  a ordem definitiva, a palavra de sempre, o vo das pernas desnudo, humilhado, porque ainda cheio de pudor.
  Muitos testemunham que Eustquia Vieira Belo morreu de um mal provocado pelo seu finado marido, o coronel Paulo Belo, ao cumprir suas obrigaes de alcova, Certeza 
ningum tem, mas duas ou trs vezes na semana, logo pela mantra, as empregadas precisavam lhe aplicar compressas de gua quente e erva medicinal pelo corpo, O unguento 
era para aliviar alguma forma de sofrimento. Incertezas  parte, o fato e que Eustquia deitou numa tarde de quinta e no amanheceu na sexta.
  Pouco se sabe sobre o ocorrido. Ate hoje o doutor Garcia no revelou a causa da morte da pobrezinha, Quando questionado, limita-se a fechar os olhos, reflexivo, 
e acenar de forma negativa com a cabea, como se escondesse o terceiro segredo de Ftima.
  Alm da fama de santa, Eustquia, por ocasio de sua morte, ganhou do marido um funeral como nunca fora visto em toda aquela regio.Vestido de preto e montando 
seu melhor cavalo, o coronel conduziu com elegncia e nobreza o cortejo. Os olhos sem nenhum sinal de lgrima, a boca expressando conformidade e um leve franzido 
de testa testemunhavam que o coronel vivenciava o funeral com a mesma disposio com que negociava o seu gado. Sua pose garbosa era quase uma afronta ao corpo morto 
de Eustquia. 
  Ele, vestido naquele terno preto de ocasio, montado naquele cavalo que inspirava a mesma personalidade do dono, parecia procurar substituta para o cargo agora 
desocupado. A banda seguia atrs do esquife executando marchas tristes. Aquele dia representou a vitria do macho sobre a fmea sofredora.
  A comadre Efignia, por sua vez, no se dobrou aos ditames do machismo. Sem alterar a voz, fazer passeatas ou queimar sutis nas praas, ela foi transformando 
aos poucos o gnio difcil do marido que a vida lhe deu. Foi dama. Com fala mansa, olhar cuidadoso, soube investigar a de Amncio tal qual o terapeuta investiga 
seu paciente. Teceu outro homem. Tal qual tecel, entrelaou nova cores no homem opaco que tinha ao seu lado. 
  Anos mais tarde, o que eu sabia sem alardes foi constatado por todos. Manifestao pblica. O domingo era comum. Nada a ser celebrado de especial, seno os motivos 
ordinrios da missa dominical. Antes que padre Jorge nos despedisse em beno, Amncio solicitou um espao para uma pequena fala no altar.
  Comadre Efignia recebeu a iniciativa num sobressalto. A igreja lotada - nica missa da semana por uma razo simples o padre Jorge no demonstrava muita alegria 
em ser padre. Amigos presentes, cheiro de testosterona prevalecendo sobre um ou outro aroma de rosas, e o compadre Amncio com um pequeno papel no plpito, pronto 
para discursar.
  Durou quinze minutos. No podamos acreditar no que vamos e ouvamos. Adelaide Sobreira s viu, devido  surdez, ao passo que Edivirges Mariano s ouviu. O glaucoma 
no lhe perdoou o descuido com a presso dos olhos.
  Com a voz embargada e as lgrimas correndo sem restries. Amncio fez uma declarao de amor que para sempre ficar registrada na memria daquela igreja. Padre 
Jorge chorou tal qual uma criana desmamada - fato que gerou comentrios e suspeitas de que o sacerdote atravessa uma forte crise vocacional.
  Olegrio Bernardes, o marido carrasco, no fez questo de esconder o desconcerto - tossiu todo o tempo que durou o discurso, como se o vrus inoportuno da tuberculose 
tivesse se estranhado pelos seus pulmes.
  Etalvina Beldegria, que estava de p, pronta para deixar a igreja - escrava de uma panela de presso em que deixara cozinhando um quilo de feijo -, precisou 
sentar com urgncia. Osrio Rinoto, o solteiro de sexualidade duvidosa, visivelmente descontrolado diante dos apelos emotivos do discurso, ofereceu-lhe com solicitude 
o lugar no banco, com um pequenino e delicado leno de papel para enxugar as lgrimas.
  Eu me ocupei em observar as reaes. S depois pude recolher as minhas impresses. Com aquele gesto, Amncio parecia apresentar ao pblico presente sua carta de 
alforria. Ele, o escravo confesso. E ela, Efignia, a sua princesa Isabel, oculta at ento, mas recebendo a coroa em noite de gala.
  Amncio tinha seus motivos. Especulamos. Certamente no desejava mais a privao do amor de alcova. Queria o direito de falas macias acompanhadas de olhares dengosos. 
Queria ser chamado publicamente pelo apelido particular - "chuchu" -,  alcunha que s depois de algum tempo a comadre nos revelou.
  Aquela forma de chamar era meiga demais para um homem daquele porte. Quase uma discrepncia, um despropsito, pensei. Comadre confidenciou-me que o legume fora 
escolhido pelo prprio Amncio, numa noite em que as armaduras estavam todas postas ao cho. Aninhado em seu colo como se fosse um bichinho frgil, ele lhe confidenciou 
que gostaria de ser chamado de forma carinhosa quando estivessem a ss.
  Primeiro ela partiu dos desdobramentos de seu nome e sugeriu "Mansinho", coisa que ele imediatamente recusou. Depois sugeriu "Torguinha", referindo-se ao sobrenome, 
mas ele tambm reprovou de pronto. Foi ento que ele pediu que fosse algo que ela gostasse de comer. Comadre Efignia confessou-me ter ficado corada com essa fala 
do compadre. Imediatamente ela props "tomatinho", mas ele torceu o nariz. Pensou que pudesse sugerir "repolho", mas julgou parecer ofensivo. Um homem repolho?  
No. Isso soaria como homem molenga, sem iniciativa. Tinha que ser carinhoso e ao mesmo tempo preservar sua virilidade.
  Sem erguer os olhos, como se fosse um menininho de perninhas quebradas desejoso de doces, o compadre resolveu sugerir:
  - No pode ser chuchu?
  - Claro, meu amor! - sentenciou, amorosa, a comadre.
  Era noite de inverno. Deitados em seu leito de amor, os amantes se entrelaaram, afetuosos. com a luz apagada, a comadre Efignia batizou-o, assim como padre Jorge 
batizava os seus catecmenos. Ele deitou "Amncio" e levantou "chuchu".
  Confesso que admiro esse jeito que a comadre teve de amansar o compadre Amncio. Para levar esse homem a essa coragem, ela deve ter feito muito esforo para mover 
o moinho. Homem e moinho pesado, e nem sempre o vento sopra a nosso favor.
   nessa hora que a gente precisa descobrir o poder que as mulheres tm nas mos.  s saber exercer. A verdadeira postura feminina no est na submisso, mas no 
podemos negar que h um jeito de mandar e, a.o mesmo tempo, parecer obediente.
  A autoridade da mulher no passa pela forca do grito. Uma ordem bem dada nem sempre precisa causar alarde. H um jeito interessante de mover a ordem das coisas 
sem que a forca da mulher precise ser bruta.  preciso descobrir a arte de mandar sem que o homem perceba que est sendo mandado.
  Comadre Efignia descobriu onde mora esse milagre dentro de sua alma. Buscou nos recursos do amor a palavra certeira, convincente, milagrosa. Ao enfrentar as durezas 
do mundo dos homens, fez prevalecer o charme, a calma e o esprito de dama. No quis se brutalizar, ao contrrio. Cada dia mais mulher, colocou todos os seus hormnios 
para lutarem a seu favor. E venceu. Ela sabe das coisas. E aprendi com ela. Macho bom  macho domesticado.

  A sombra deste abacateiro  to velha quanto eu. Dizem que foi plantado pelo meu bisav, por ocasio da partida de seu filho, que foi ser padre no outro lado do 
mundo. Plantou a rvore para substituir a presena que se foi. Quis ver nascer da terra alguma coisa que pudesse acalentar a ausncia.
  Depois de tanto tempo j passado, filho morto e pai sepultado, a velha rvore continua sendo uma resposta  dor sentida. Estende no tempo a partida que j no 
h. Prolonga na histria o que o silncio se encarregou de sepultar e se transformar em sacramento na memria de quem sabe o motivo.
  Talvez seja por isso que, sempre que posso, me disponho a escrever cartas aos missionrios que esto na frica.  uma  forma de pr a mo na bblia que est no 
outro lado do Atlntico e dizer, por meio de suas vozes, as verdades evanglicas em lnguas estranhas.
  No meio das cartas costumo colocar algumas folhas da velha rvore.  um jeito de fazer o abacateiro continuar tendo sentido, quando algumas de suas folhas cruzam 
as distncias do mundo, envoltas e protegidas por frgeis envelopes de papel. Quem as recebe no sabe, mas quem as envia conhece bem as razes.
  O amor sobrevive de memrias. Essa verdade me acompanha desde menina, quando minha me me ensinou o ofcio de tecer colchas de retalhos. Fazia questo de contar 
a  histria de cada retalho que pegava na mo. Frases curtas, mas com significados profundos. No sei ao certo se havia alguma verdade em seus contos, mas isso no 
importa.Verdadeiras ou no, aquelas histrias me emprestavam alegrias.
  Uma colcha de retalhos resguarda histrias surpreendentes. Eu aprendi. Olho para a trama da colcha e concluo: "O retalho de veludo marinho no ficou bem neste 
losango onde predomina o percal e suas tonalidades apagadas Parece um lorde ingls perdido em festa de pobre!".
  Uma colcha de retalhos e uma aula de sociologia. Uma concretizao da utopia marxista que desejava reunir num mesmo banquete operrio e patro.
  O tecido da madame  costurado ao retalho de uma antiga saia de empregada domestica. A vida deu voltas. Os vestidos rodopiaram nos sales de festas, despediram-se 
dos corpos, caram no esquecimento e depois foram retalhados e enviados para a associao de mes benfeitoras. Sacos entulhados resguardam histrias diversas! Formaturas, 
casamentos, primeiro beijo, velrios, sepultamentos, tardes de domingo.
  O bom da vida est por toda parte. Os retalhos que costuro me recordam que a felicidade e um mosaico. O cotidiano empresta os pedaos que compem o todo. Cada 
instante de vida e como um retalho que ajunto pela forca da sutura.
  Em dias de chuva, fao sopa de macarro e como at ficar triste. H tanta lembrana escondida numa panela de sopa! Vida que se revela em noites sem estrelas, maos 
de salsinha picada, tamboretes ao redor da mesa e um bilhete de papel de po, rosado, pregado na geladeira, comunicando: "Me, fui  casa da Lidia. Guarda janta 
pra mim".
  Um recado despretensioso, um retalho de papel, fragmento de fala solicitando desejo simples, prazer menor, diferentemente de outros j lidos, pregados ali naquela 
mesma geladeira. 
  Bilhetes e retalhos so realidades parecidas. So pequenas partes de um todo. A frase que o bilhete resguarda  apenas um hiato do discurso existencial que no 
cabe nas palavras.
  Eu mesma j recebi muitos bilhetes. Sempre pregados na geladeira. O mais triste deles foi numa manh de agosto. A porta da cozinha, entreaberta, e o bilhete escrito 
em papel pardo comunicava: "Cansei de viver, estou no quarto dos fundos".
  A tragdia teve o seu primeiro passo num pequeno pedao de papel pardo. Escrever aquela frase, decidir aquele gesto to aterrorizante fez-me pensar no quanto  
preciso coragem para querer morrer. A colcha no estava bonita. Decerto houve a prevalncia de retalhos tristes.
  O menino mais novo do sargento Roseira  um diabo. Vira e mexe vem bater campainha aqui em casa e sai correndo, Eu j prometi que vou dar uma coa nele. No me 
importo com o fato de ser filho de autoridade. Eu criei meus filhos numa disciplina rigorosa, e no  agora que vou agentar desaforo de menino entojado. :Esse menino 
 um retalho to pudo que no serve nem pra fazer tapete.
  Em dias quentes, prefiro gua gelada com folhas de hortel. Antiga receita da baronesa Eliana S.  quase uma redeno para o corpo, felicidade escondida, prazer 
quase religioso, assim como os gomos de uma laranja. Uma laranja  uma comunidade perfeita. Os gomos se dispem a viver juntos, mas preservam sua individualidade. 
Por isso gosto de descasc-la para perceb-los. Acho um crime esprem-los todos de uma s vez. Gosto de sentir o sabor de cada um. Suco de laranja e coisa que me 
assusta.  a comunidade esfacelada, espremida. Chega a me dar agonia.
  A propsito, ando experimentando calafrios na hora da novena de So Geraldo. Sozinha comentou comigo que anda sentindo a mesma coisa. Acho esquisita essa coincidncia. 
Sinceramente, acho que Sozinha  uma mentirosa descarada. At hoje ainda no engoli aquela histria de que ela recebeu em sonho o pedido de Nossa Senhora das Vitrias 
para que sua imagem passasse o Natal em sua casa.
  A comadre Maria Rosa comanda as visitas da imagem h anos e tem sempre o cuidado de que a lista seja seguida com rigor. Mas, quando a Sozinha a procurou para 
contar a revelao que a santa lhe fizera em sonho, ela s pode concordar. Discordar do pedido da santa? De jeito nenhum.
  O nome dela nem constava na lista. Ha famlias que j esperam h mais de trs anos. Eu mesma j tive vontade de receber a imagem mais de uma vez em minha casa, 
mas nunca me senti no direito de pedir.
  Enquanto isso, vou cuidando desta avenca na janela como quem cuida de um recm-nascido. Mas ela no agradece. Vive murcha. Nunca tive sorte com avencas. Quem me 
deu esta muda foi minha prima Heliodora. Trouxe para mim de Santo Antonio do Monte. Eu a encontrei na mesinha de centro da minha sala. Uma surpresa.Tinha atado em 
seu caule um bilhetinho com dizer nico:"Cuida direitinho, seno morre!".A comadre tem razo. H tanta coisa na vida que se a gente no cuida direitinho, acaba morrendo 
antes da hora. A Odete Leocdia  um exemplo disso. Est morrendo antes tempo. Foi vtima de um bilhete de geladeira.
  Depois de um fim de semana em Itapecerica cuidando da me cancerosa, deparou-se com um bilhete escrito em papel amarelo pregado na geladeira: "No quero mais te 
enganar. Fui embora pra Bahia com a Florpedes mais o menino que ela fala que ela fala que  meu!".
  Depois desse bilhete a Odete nunca mais foi a mesma. Vive murchinha, igualzinha  minha avenca. De vez em quando amasso po de queijo e mando um tabuleiro pra 
ela mais meninos com o intuito de amansar a tristeza.
  Tristeza maior  quando chega a poca de Natal.  de cortar o corao! Judiao. Nem uma bola de rvore colore aquela casa. Depois daquele bilhete, a vida para 
aquela famlia  sempre Sexta-Feira da Paixo, calvrio definitivo.
  Deus que me perdoe, mas, se existir inferno, ele deve estar cheio  de marido safado. O excomungado do Silvrio deve ficar na porta, ao lado do coisa-ruim, dando 
boas-vindas a quem chega.
  Mas no quero julgar ningum. Quero  rezar pelas almas do purgatrio com a mesma disciplina com que fao minha caminhada pela manh. Passou o Dia de Finados e 
o inchao das minhas pernas no me deixou ir ao cemitrio. Minha sorte  que a Igreja prescreve que, at o dia 8, uma visita ao cemitrio, acompanhada de uma reza 
pelas almas aflitas, nos rende indulgncias plenrias. - Mas s at o dia 8! - insistiu o vigrio de Cristo em seu pronunciamento.
  Fico pensando. Ser que e at a meia-noite ou s no horrio comercial? Sei no. O que sei e que nossas indulgncias acabam ficando nas mos dos porteiros dos cemitrios; 
afinal, so eles que determinam os horrios do fechamento das portas. Vai ver que no dia 8 h uma tolerncia maior no horrio, assim como nos bancos em vsperas 
de feriados prolongados.
  Ah, no sei. O certo  que essa contabilidade de graas  esquisita que s.
  Dizem tambm que h uns outros tipos de indulgncia que eles chamam de parciais. So para aqueles que no conseguiram cumprir o preceito no tempo e do jeito certo. 
Eu fico sem saber.
  Irm Lucilene, sempre que quer nos consolar de uma espera tortuosa, vive nos dizendo que nosso tempo no  o tempo de Deus. Mas a eu me pergunto: ento para que 
serve o calendrio litrgico? E como  que fica essa histria de indulgncias plenrias e indulgncias parciais? Se os tempos so diferentes, como  que Deus controla 
quem lucrou plenria e quem lucrou s parcial?
  Perguntei inocentemente tudo isso ao padre Joo e ele me respondeu com um grito que me gelou a alma: - Atrevida! - Depois do grito, veio a penitncia pelo atrevimento. 
Proibiu minha entrada na igreja por exatas duas semanas.
  E foi a que no entendi mesmo! Em minha inocncia, quis esclarecer com uma perguntinha, logo aps a ordem de expulso:
  - Como  que fica aquela histria de que Deus prefere os pecadores? O senhor no est expulsando da igreja um daqueles a quem Deus prefere?
  E mais uma vez ele gritou:
  - Sacrlega! - e acrescentou a penitncia mais quinze dias.
  Deus que me livre ser Deus! Deve dar trabalho demais vigiar o mundo! Ser que no cu. h um relgio de ponto onde os horrios so conferidos no caso das indulgncias? 
Quem chegou antes, quem chegou depois. No sei. Melhor  deixar pra l! H umas coisas na religio sobre as quais  melhor a gente ficar quieta.
  Deus que me cegue se eu estiver blasfemando, mas nunca estendi essa histria de que o pobre do Judas j nasceu predestinado a ser o traidor. Coisa mais triste, 
meu Deus!
.  Eu fico  calada, porque, quando eu quis defender o pobre do apstolo, o padre Joo quase me excomungou em pblico! Depois disso, duvido sem falar nada pra ningum. 
Duvido sem alarde, rindo por dentro, gritando s pr mim mesma os absurdos da f.
  Nas reunies de setor, sou sempre a primeira a interpretar a palavra de Deus. Sou ortodoxa que s. Tenho prazer em interpretar e repetir as orientaes dos cardeais. 
Aquelas vestes vermelhas me convencem.
  Eu bem que gostaria de ter um retalho daquelas roupas para enriquecer as minhas colchas. Iria costurar um pedao da batina cardinalcia num retalho retirado do 
vestido da Rosalinda, a prostituta mais odiada da cidade. 
  Ningum saberia do fato, s eu. Aquela colcha seria a concretizao da profecia do profeta Isaas, que previa que um dia lobo e cordeiro comeriam no mesmo prato. 
A colcha seria dada ao padre Joo. Quanta rebeldia cabe em mim! Outro dia apertei um tomate na banca do Jorge at fur-lo. Ningum viu. O motivo foi simples. Repdio 
ao preo abusivo que estava sendo cobrado.
  Pequenas transgresses me fazem feliz. Outra coisa que tambm gosto de fazer e apertar aqueles pacotinhos de chicletes recheados.  uma delcia infantil e, ao 
mesmo tempo, uma vergonha para uma mulher da minha idade. Mas sentir o estouro dos pequenos cubos dentro das embalagens  uma alegria que recupero da minha infncia. 
  O ordinrio do Justino tem a mesma idade que eu e ainda teve o descaramento de me avisar de que eu poderia entrar fila do atendimento especial. O banco lotado, 
gente saindo pelo ladro, e ele teve a coragem de alterar a voz e me fazer uma desfeita daquela, na frente de todo mundo! Na hora que ouvi a frase atrevida, o cho 
pareceu me engolir. Que vergonha, meu Deus! Isso e o mesmo que falar: " velha, economiza as pernas para dar conta de chegar at a funerria e escolher o seu modelo!". 
  Na hora no abri a boca, mas minha vontade era de falar umas poucas e boas pra ele. Isso no se faz. Qualquer dia desses entro na casa dele e prego um bilhete 
na geladeira:"Deixei alguns pares de meias no congelador. Esto sujas. Pega e chupa!",  
  Que horror! "Vai chupar meia" era uma expresso que no saa da boca do velho Juvenal Catarro Grosso. Era o homem mais desbocado que j vi na face da Terra. Usava 
a expresso toda vez que algum o aborrecia. Nunca soube a origem de seu nome horroroso. 
  O dio que Justino me despertou ainda me assanha. Mas Deus me livre de alimentar ressentimentos. Quero  a absolvio dos meus pecados, a redobrada vigilncia 
de no deixar minha avenca morrer de vez e a herica coragem de comprar um bilhete de rifa da Iraci sem desconfiar de que ele j tenha conhecimento do nome que ser 
premiado.
  Da primeira vez, o ganhador foi o marido dela. Da segunda, foi o Valdir, seu filho mais velho. Da terceira, foi a Valdirene sua sobrinha. E, por fim, ela mesma. 
Ah, tenha pacincia! Vai fazer hora com a cara de quem tem tempo. Qualquer dia desses eu me encho de coragem e a mando picar a mula com aquelas cartelinhas.
  Enquanto no mando, vou pregando bilhetes imaginrios em geladeiras inexistentes e tecendo colchas.  uma terapia. Imaginando bilhetes, reformo o mundo. Costurando 
tecidos, reaproximo as distncias, diminuo os abandonos. Pela fora dos tecidos, reconcilio os inimigos, reencontro amores perdidos, esquento a junta, disperso a 
ira trago maridos de volta para suas esposas.
  O mesmo acontece com os bilhetes. Pregados na geladeira, tanto podem gelar a alma quanto aquecer a carne. Tudo depende da letra e da cor do papel escolhido.
  Neste fim de semana minha filha mais moa veio me ver. Foi embora quando ainda era cedo. Deitada, recebi o seu beijo. Ficou me olhando um tempo em silncio. Acariciou 
meus cabelos e depois enxugou a lgrima que seu gesto despertou em mim.
  Mais tarde, um bilhete escrito em papel azul-claro que advertia: "Mame, h felicidades escondidas por toda a casa. Observe o prazo de validade para que no se 
percam!".
  De to feliz, quis morrer naquela hora.

  Uma mulher de palavra
  Amei, sim. Outra coisa no fiz. Aprendi muito cedo que o amor  a cincia que traz em seu bojo a possibilidade de reconciliar os contrrios.  o movimento que 
nos encaminha para uma sincera contemplao da realidade.
  Amar  exerccio de redeno. O real, crueza da existncia esse  o lugar a ser redimido.  a hemorragia a ser estancada;  a criana a ser curada de sua orfandade, 
amparada ao colo, e ouvir em confidncia que o tempo do abandono no existe mais.
  Nunca tive filhos. Meus partos foram outros. Vivi para parir palavras. Nunca me ocupei de fraldas, mas choros na madrugada sempre tive que aturar. Por diversas 
vezes fui acordada pelas dores do mundo. Eram trazidas por mulheres mudas, que por meio de sonhos e alucinaes entravam no meu quarto implorando direito de fala.
  Mulheres que no sabiam contar suas histrias. Mulheres famintas de palavras, desejosas de argumentos que as convencessem a dar prosseguimento  vida.
  A mim no restava outra coisa seno cumprir a sina de saciar sua fome de significado. E ento eu me punha a fazer mamadeiras de palavras para que parassem de chorar.
  Eu e meus dias. A estrutura das horas  quase uma condenao. De novo o amor; a necessidade de recolher o tempo, beijar-lhe a face e descobrir a beleza que permanece 
segredada em seu avesso.
  H uma redeno no tempo. Broto mido de felicidade que, descobrindo uma fresta no telhado de minha vida, de vez em quando vem ilumin-la. Envelhecer  despedir-se 
do tempo. Alforria que a assinatura de Deus alcana e que minhas mos recebem agradecidas. Direito de perder a hora, esquecer os dias, ignorar o futuro e fazer demorar 
o presente.
  O esquecimento  uma virtude que aos homens livres pertence. Esquecer  o mesmo que trocar de matrias. O que  de agora substituo pelo que era de antes. O desrespeito 
pelo tempo prevalece. No h uma ocupao medrosa Com os imperativos urgentes do presente. Esquecer  fugir da vida. Fuga pela porta da frente.  sair com elegncia, 
cumprimentando o responsvel pela sentinela e desejando-lhe um bom trabalho.
  S os corajosos esquecem. Eu esqueci. E por isso amei. Vivi a vida ao contrrio. Desenvolvi a tcnica de vencer ondas revoltas e ainda ganhar tempo para observar 
sua beleza. Andei em crculos, ritualizei as retas para que as distncias no me desconcertassem.
  Aos poucos, a vida me permitiu chegar. Cheguei perto de mim. Alcancei o destino mais distante, o mais tenebroso, mas depois fugi. Confesso que fugi. A luminosidade 
que e prpria dos dias de juventude costuma ofuscar os olhos. Fui vtima do medo. Permiti que outras vozes falassem por mim. Alienei em outras mos o direito sagrado 
de cuidar dos meus sonhos, e de novo o amor, o momento de rebuscar a simplicidade perdida. O desejo de ser pequenas partes e de preparar com dedicado empenho o atrevimento 
da totalidade.
  Conselho de Fernando Pessoa. A existncia posta  prova nos versos que envergonham os mascarados. Tabacaria. A        crueza da opo mais vergonhosa. A fragmentao, 
a mediocridade, a pouca medida, o quase nada do ser. Conselho de Pessoa para a pessoa. Eu quis acolher. Quis arrancar a  mscara. E assim o fiz. Desagradei a muitos, 
mas reencontrei o caminho.
  Pessoa  o meu evangelista predileto. Redimiu minha alma com sua poesia. Celebrao que me coloca diante do sangue derramado, diante da dor que me toca, mesmo 
distante do tempo, findada, fadada ao sepultamento de um corpo que se desfez solitrio.
   sombra dos sonhos humanos, tambm escrevi histrias. Descobri a graa de partejar gente, fazer vir  luz outros nomes, outros rostos, j que da minha carne nenhuma 
outra carne veio a luz. O desejo da maternidade no era suficiente para que as trompas produzissem as sementes necessrias. Solitria com meus ovrios infrteis, 
restaram-me algumas possibilidades: inventar pessoas, criar personagens, soprar ar de literatura nas narinas imaginadas.
  Neles eu pus bocas, sorrisos, palavras, preces, desaforos. Criei tramas, inventei conflitos, expus a dor, consolei vivas, reconciliei amantes. Fiz amar, fiz sofrer, 
fiz parir, fiz partir, fiz voltar, fiz milagres. Fiz de mim o que Deus fez do man. Chovi sobre o mundo e alimentei a multido faminta. Multipliquei minha vida, 
desdobrei minha existncia em muitas outras. Fui quem gostaria de ter sido. Fui pessoas como Pessoa. Fui o repdio, mas tambm fui o desejo. 
  A literatura  multiplicao da vida. Somos o mundo inteiro no pequeno espao da histria que nos permitimos criar. Escrever  emprestar o corpo ao corpo que desconhecemos. 
 emprestar pernas aos invlidos.  colocar olhos no cego.  dar voz  boca que  muda.  incorporar o conflito que no nos pertence.  desvelar o conceito, o sentido 
mais oculto, o desconcerto que nos cora a face. 
  Tra, confesso que tra. Disse que seria fiel e no fui. Prometi que voltaria e no voltei. Marquei compromisso e no cumpri. As contradies no me abandonaram 
ao longo da vida. Insisti em encontrar o equilbrio, mas o que h no meu corao  grande demais para ser considerado humano. Meu amor no  humano.  projeo de 
um amor estranho, proveniente de uma fonte desconhecida, incontrolvel. Esse amor me estrangula, retira meu sono, o ar, o sossego.  como se eu perdesse o controle, 
a direo, o prumo. 
  O meu querer se vai com a mesma pressa com que chega. O encanto dura quase nada, mas, enquanto dura, quase necessito de balo de oxignio para o respiro necessrio. 
As lgrimas caem, o riso me deixa rouca, a felicidade me alucina. Depois, a rotina. O prato de macarro instantneo, a cama estendida, a roupa na mquina, o despertador, 
o ponto no trabalho, a caneta que nunca encontro, o sapato apertado, a bainha da saia precisando de reparos, o telefone que toca, insistente. 
  No, no me privei dos poemas de ltima hora. Eles so inocentes  primeira vista, mas, como tudo na vida, a aparncia no  a melhor definio. O mais interessante 
 o que est escondido. Coisas  mostra so amostras grtis.A quantidade  pouca. Gosto  de retirar o lacre, observar a fartura, romper os limites do convencional. 
O texto e seu contexto. Regra hermenutica que dilata o horizonte e o plenifica de sentido. H palavras que esto por detrs das palavras. So filhas das sombras. 
Falam, mas em segunda voz. 
  Cultivei muitas manias. Colecionei miniaturas. Tudo o que desejava grande eu comprava pequeno. Substituio interessante para quem v de longe, mas humilhante 
demais para quem v de perto. Sobrevivi. 
  A dor nunca me deu trguas. Acreditei piamente no valor do sofrimento. A cicatriz depois do corte, a redeno depois da morte. Morri, confesso que morri. Aos poucos, 
em pequenas partes. Nas esquinas, nas vitrines, nas palavras e nas gorduras saturadas. 
  A vida sem disciplina, sem medida, sem dietas. Eu quis afrouxar as rdeas, mas no soube. Fiz hora extra, fiz sero, fiz absurdo. Dormi pouco, acordei no meio 
da noite, me pus a servir  ansiedade e no aprendi a dormir com um travesseiro no meio das pernas. A minha coluna no me perdoou essa displicncia. 
  Vendi minhas frias e depois gastei o dinheiro com terapeutas e remdios. Vendi minha herana e herdei uma dor na conscincia. O casaro onde nasci virou uma clnica 
veterinria. O local dos meus significados agora tem utilidade para outros. Os bichos se ocuparam do que era meu. A porta da sala, o alpendre, o lugar onde meu pai 
enrolava o seu cigarro de palha enquanto eu ensaiava os meus primeiros poemas, tudo o que antes era humano deixou de ser. 
  Eu e meu pai. Cumplicidade absoluta. Ele enrolando a palha e eu enrolando as palavras, selecionando as semnticas, construindo sinttica. 
  Viver  dor constante. Desatino na alma que no passa. Escrever  uma forma de obedecer aos desatinos. H uma senhora que no para de gritar na minha cabea. Insiste 
em reclamar do marido. Ela me conta os seus conflitos, as dores do corpo, os incmodos da alma. Fala dos desconcertos da idade e tambm dos acertos da maturidade. 
Revela-me sem pressa sua alma mulher, a alma que sempre quer; a alma que no descansa. O querer sem domnio, o desejo que mora na gaveta que nunca foi aberta. 
  As mulheres so fascinantes! Interpretam o mundo de um jeito diferente. Nelas reconheo a potica da existncia. O vestido de festa, o trapo de limpeza, a bacia 
de roupas, o sabo transbordando, o bordado no linho, a linha na costura. Os teares em movimento, o cheiro de caf, a conversa, os desabafos; afetos e desafetos 
.. 
  Vida de reparos. O reparo na cala deixa consequncia na alma. A comida na mesa, os lenis trocados, o cheiro bom de limpeza. Fragmentos da vida que nos recordam 
que o cuidado  atributo especfico dessa condio humana. Ainda que o homem cuide, a mulher  quem plenifica a Vida de sentido. 
  A mulher na esquina, na padaria, na travessia da avenida. O hormnio da sensibilidade mistura-se  fumaa e ao barulho dos carros. A vida fica mais leve. Os seios, 
os teros, os ovrios. A vida segredando seus primeiros movimentos nesses corpos que andam. As barrigas que crescem; a maturidade que chega. O leite que escorre; 
o prazer que agora tem outro nome, outro toque, outro molde. 
  Boca de recm-nascido a roar espaos que antes pertenciam aos decotes, s noites e suas comemoraes. As reviravoltas do tempo, as mudanas do vento, a permanncia 
da sacralidade. 
  O mosaico e sua seduo. Olhar de me ensinando a ser gente. O mesmo olhar se despindo indecente. A mesma mulher, mil vezes esquartejada, projetada em mltiplas 
funes. O delrio, a sanidade, a postura impura, a santidade. No h literatura que aguente tantas facetas.  por isso que digo: essas mulheres no me deixam dormir. 
Ou porque clamam por fora, ou porque clamam por dentro de mim. 
  Elas so cheias de graa. Ou porque nos fazem rir, ou porque so sobrenaturais. 
  Em branco
  Miudezas
  A Maria Antonia tem mania de chamar as pessoas de "coisinha". Acho esquisito demais esse comportamento dela. Por outro lado penso que seja uma forma inteligente 
de driblar os esquecimentos.  to feio esquecer o nome das pessoas. Outro dia chamei Jurema de Jurubeba. Quase morri de vergonha. A sala estava cheia, e, por incrvel 
que possa parecer, todos se calaram justamente no momento em que eu a cumprimentei. 
  Lucila no perdeu a oportunidade de me expor s galhofas. Alis, Lucila vive para me perseguir. E no  de. hoje. Vem. de longe essa perseguio. J no tempo da 
primeira escola fazia questo de me matar de vergonha, como na ocasio em que pregou um papel nas minhas costas com uma frase maldosa, escrita em letras garrafais: 
"Eu soltei um pum ... " Eu percebia que todos me olhavam e gargalhavam, mas no sabia o motivo. Fui descobrir somente no momento em que irm Emengarda percebeu a 
balbrdia e resolveu ir buscar as razes. 
  Ando desconfiada de que a escola esteja fazendo mal pra cabea do Geraldinho. Ontem mesmo veio com umas conversas esquisitas para o meu lado. Tudo comeou quando 
eu lhe disse: "Deus tarda, mas no falha" Geraldinho!". A frase estava num contexto. J me explico. Queria consol-lo de um calote que ele recebeu do neto do Vicente 
Moura. O pobre do Geraldinho lhe vendeu um pio, mais meio cento de bolinhas de gude, e o ordinrio no lhe pagou. Depois da minha frase que apelou para a justia 
divina, o menino me fulminou com um olhar de desaforo e esbravejou: - Vov, Deus tem mais o que fazer do que ficar cuidando da safadeza de gente vagabunda! 
  Quase perdi a fala com aquela reao do menino. Achei forte demais aquela expresso. Sempre formos muito ponderados nas conversas que tnhamos  frente das crianas. 
Aprendi com papai. Ele nunca nos permitia falar palavres. Depois do acontecido pude concluir que Geraldinho deve ter aprendido isso na escola. Educar uma criana 
 como cultivar goiabas. Por mais que a gente cuide delas, sempre do bicho. 
  Geraldinho est comigo desde a morte de Isaura, minha filha. O parto j havia terminado quando veio a febre que a vitimou. O pai do menino resolveu sumir no mundo. 
Deixou-me essa goiabinha que fao questo de cultivar. 
  A Semana Santa passou e Silvria no fez a confisso que havia me prometido. Depois fica querendo sade. Ando desconfiada de que essa doena dela  acmulo de 
pecados. J falei sobre isso, mas ela me ignora totalmente. O que falta a Silvria  uma boa correo espiritual. Depois que foi abandonada pelo Henrique, nunca 
mais encontrou o caminho da Igreja. Diz que conversa com Deus em casa. Eu escuto o que ela diz e no retruco mais. Cansei. Quem tem que fazer isso  o padre, mas 
nem com isso podemos mais contar. Longe vai o tempo em que os padres nos recordavam de que o fogo do inferno continua aceso. Em vez disso, vivem dizendo que a misericrdia 
de Deus est acima de qualquer erro humano. Tenha pacincia. 
   por isso que tenho saudade do padre Cornlio. Nunca vi aquele homem abrir a cara pra ningum.  assim que tem que ser. Depois que os padres comearam a rir demais 
pro povo deu no que deu. Deus que me livre! Quero ter uma dor de dente se estiver errada, mas esses padres moderninhos vo acabar com a nossa Igreja. 
  Vira e mexe vejo o nosso novo vigrio correndo de calas curtas pela praa da matriz. Diz que  atleta! Deus que me perdoe, mas no posso admitir uma coisa dessas. 
Um padre correndo de calas curtas? Ser que as freiras vo pelo mesmo caminho? Cad o respeito? Se a gente encontra um desses na rua nem consegue saber que  padre. 
Cad a batina preta pra colocar medo no povo? O padre Cornlio s era visto de batina. Qualquer hora do dia ou da noite, l estava ele, parecendo um corvo em estado 
de alerta, pronto para um rasante salvfico no meio do povo. 
  Rosa Cllia no concorda comigo. Diz que sou antiga demais para entender a proposta do novo vigrio. Fala em tom de humilhao, desejosa de me expor ignorante, 
pouco arejada. No concordo com absolutamente nada do discurso que faz, mas tenho medo de discutir com ela.  minha irm mais nova. Teve oportunidade de estudar 
fora e depois resolver voltar para administrar a escola municipal.Voltou influenciada pela teologia da libertao. Sinto at um arrepio na espinha quando falo esse 
nome. Durante uma reunio das filhas de Maria, a irm Celeste nos ensinou que essa tal teologia  um movimento esquisito que quer colocar os comunistas dentro da 
Igreja. Ela nos falou que, se por acaso essa teologia vingar, teremos que dividir at a nossa escova de dentes com os pobres. Falou mais. Os padres adeptos pretendem 
matar o papa. Terminamos a reunio em pnico. A irm Ester foi vtima de taquicardia. Dona Esaltina precisou ser amparada. Desmaiou no momento em que a irm Celeste 
nos revelou que o novo vigrio fazia parte do grupo rebelado. 
  Mas, se no sou capaz de resolver os problemas do papa, eu me esmero em cuidar dos problemas do mundo. A comadre Silvia ainda no se livrou da dor no joelho. J 
passou at num especialista, mas de nada adiantou. Agora ps a esperana numa pomada que Justino Ferreiro prometeu trazer da Amaznia. Coitadinha da comadre. Caiu 
na conversa do safado do Justino. Sabe muito bem que ele no vale nem o sal do seu batizado e mesmo assim pe confiana na conversa dele. Tentei abrir-lhe os olhos, 
mas o desejo de desinchar aquele joelho  to grande que meu alerta no serviu pra nada. 
  - Sem repouso no cura! - alertei. Comadre  relapsa. Mesmo com o joelho doente, continua lavando roupa pra fora e duas vezes por semana faz faxina na casa do 
prefeito Donatrio Arouca. Enquanto isso, Lucileide, a filha mais nova, fica batendo perna  toa, medindo rua. No alui uma palha para ajudar a comadre. Desaforo. 
Lembrei de goiaba bichada. 
  Sexta-feira de manh o Z Prego passou na minha casa. Era portador de notcia triste. Seu cavalo foi atropelado pelo trem l na travessia que divide a Vargem Grande. 
Morreu na hora. Z Prego era um desconsolo s. E com razo. Era com o bicho que ele conseguia fazer uns carretos pra manter a famlia. O cavalo era seu ganha-po. 
Contou-me cheio de tristeza que o infeliz estava junto com a tropa do Venncio Bezerra. Juntou-se por acaso. A tropa passava pelo pasto onde Z Prego o deixara. 
Deve ter visto o passeio da tropa e quis ir tambm. 
  Eu fiquei chateadssima. Venncio Bezerra no tem mais onde enfiar dinheiro.  dono de metade da cidade. Tanto cavalo pro trem passar em cima e foi passar justamente 
no cavalo do Z Prego! No me conformo. O po do pobre sempre cai com a margarina virada pra baixo. Meu pai tinha razo. Ou no. Na maioria das vezes o po do pobre 
nem margarina tem. 

  Fotografia 
  A sombra era maior que a casa. A vida  mesmo assim. O retrato no demonstra a alma; apenas desperta a curiosidade de querer conhec-la. O carter no tem cor, 
no  revelvel em papis. 
  Antes fosse. Quem sabe assim a Leonor tivesse se livrado do Justino Vieira. H quem diga que ela se apaixonou vendo um retrato no jornal. Justino estava na guerra 
e virou notcia na cidade. Leonor no pensou duas vezes. Viu, gostou e jurou amor eterno  fotografia. 
  Quando ele retornou com o peito coberto de medalhas, ela o procurou e contou-lhe o ocorrido. Duas semanas depois eles se casaram. Isso prova que ele no valia 
nada. 
  Leonor aguentou, em profundo estado de abnegao, vinte e seis anos de traies constantes. Depois se trancou num quarto e cortou os pulsos. A fotografia publicada 
no jornal ainda sorri na gaveta do criado-mudo. Est muda. E no pode mudar o rumo dos acontecimentos. 
  Ontem descobri um broto de jabuticabeira bem perto do muro que faz divisa com a horta do Bernardino Rodrigues. A princpio pensei que fosse uma plantinha sem-vergonha. 
S depois percebi seu valor manifestado. Demorou pra revelar o que era. Uma jabuticabeira  quase uma mina de ouro. Jabuticabeiras pertencem  estirpe das realidades 
religiosas. No sei por que penso assim, mas sempre reconheci nelas uma beleza sacra. 
   Recordo-me com saudade. O tempo das chuvas, a proximidade do Natal e o ritual de v-Ias floridas. Em pouco tempo, os frutos. A vida generosa, a multiplicao 
da alegria e uma voz segredando aos meus ouvidos de menina maravilhada: "Retira as sandlias dos teus ps, pois este solo em que tu pisas  santo!". 
  No gosto de desvendar mistrios. Prefiro conviver com eles. Saborear o no saber, o oculto,  prazer que no mensuro. Esbarrar no silncio das coisas sem forjar 
palavras  um jeito que tenho de viver imaginando. Quando no sei, imagino, e imaginar  ver o mundo do avesso. Desvendar  o mesmo que expor  banalidade. H mais 
beleza na pergunta que na resposta.  a fora contundente das estticas inacabadas. 
   O Z Vieira est doente. Mesmo assim no para de fumar. J tentei tocar no assunto, mas ele desconversa. Tenho medo de que ele morra antes de mim.  o nico amigo 
que tenho. Os outros s servem para passar o tempo. J o Z  o meu tempo. Olho para ele e vejo minha histria. 
  Vira e mexe ele me fala do que gostaria que fosse feito depois de sua morte. A venda da casa, o encaminhamento do dinheiro para o Lar So Vicente, a simplicidade 
que dever prevalecer no funeral e outras coisas que considero absurdas. Eu j disse pra ele que no quero ouvir esse tipo de conversa, mas ele insiste em continuar. 
Desconverso, finjo que no escuto, mas de nada adianta. 
  A vida passa. Outro dia me peguei sentindo saudade dele. Antecipei na carne a ausncia que ser depois. Olhei uma fotografia de quando ele ainda servia o exrcito. 
Estvamos no coreto da matriz. A vida parecia fluir do papel. O sorriso amarelo, a juventude fugida, a contradio nas entrelinhas. Pudesse eu voltar no tempo e 
jamais usaria um vestido daqueles! 
  Andei pensando na possibilidade de voltar a Santa Rita do Passa Quatro, cidade onde nasci. Nome esquisito cuja origem desconheo. Quero ver a casa onde cresci. 
Deve estar modificada. S Deus no se modifica. Queria ver as mesmas cenas com os olhos transformados pelo tempo. 
  Os cenrios da infncia a partir dos olhos da senectude. Cruzar os mesmos espaos que antes cruzava com pernas midas, saias curtas e blusas cheias de ndoas. 
Ver o rio que passava ao fundo, o barranco, as goiabeiras que ficavam perto do curral. Sentir mais uma vez o cheiro do dia parindo a luz, o mugido das vacas, o tropeo 
dos pees e suas ferramentas.Ver os detalhes que a vida revelou com o tempo, como se fosse uma fotografia que levou anos e anos para se tornar ntida. O distanciamento 
no tempo revela os detalhes da realidade. 
  Eu sempre dizia para o Manoel ter pacincia com Roslia. No me ouviu. Hoje ele sofre com o arrependimento. A vida nem sempre abre uma mesma porta duas vezes. 
Manoel sabe bem disso. Descobriu que era doce o amor de Roslia, mas s o soube e o reconheceu depois que provou o amargo da desiluso que agora o assola. 
  Mas no me importo com isso. A saudade  sempre maior que os amores. Nela h uma projeo, uma idealizao que suplanta a realidade. Amor a distncia  felicidade 
garantida. Que seja assim. 
  Meu armrio da cozinha est com defeito. A porta insiste em permanecer aberta. s vezes acho que ele quer me irritar.  por isso que ando acreditando que os mveis 
possuem alma. Reparo na mesa da minha cozinha e percebo que ela fica me espiando.  como se o tempo nos trouxesse uma cumplicidade que nos permitisse alguma forma 
de comunicao. O armrio da sala sabe todos os meus medos.  ele quem me socorre quando preciso atravessar a sala durante a madrugada.  com ele que falo durante 
o curto percurso que separa o quarto do banheiro. Sempre troco uma palavrinha com ele com o intuito de quebrar a solido. 
  Desde a morte de Floriano, os mveis e o Z Vieira so os meus companheiros. O armrio da cozinha no entra nesse grupo. Ele vive pra me irritar. Fiz reparo na 
porta, Z Vieira ajeitou uma soluo, e ainda assim ele continua se abrindo todo sem a minha interveno. Parece afronta. Qualquer dia eu me irrito definitivamente 
e fao lenha dele. 
  O bom da vida geralmente no cabe nos conceitos mais elevados, mas resguarda-se em surpresas que insistimos em no enxergar. Ontem mesmo percebi a felicidade me 
rondando. A cena era mida, quase insignificante. Precisei olhar trs vezes para reconhec-la feliz. 
  Um menino andava sobre os trilhos da estrada ferroviria. Quase uma fotografia. Equilibrava-se e tentava alcanar velocidade. Estava s. Corria e,  medida que 
vencia o desafio, desatava um riso que varava a solido da tarde. 
  Fiquei olhando da minha janela. E no ato de olhar adentrei a cena. Torcia por ele. Queria v-lo vencer. A cada desequilbrio, um susto e uma acelerao nos meus 
batimentos cardacos. Ele no me via. No sabia que tinha uma assistente. No importa. E, mesmo sabendo que estrada de ferro no  lugar de criana, dividi com ele 
aquela molecagem irresponsvel. Fosse seguir meus instintos disciplinantes e j o alertaria dos perigos de brincar ali. Um p quebrado, um joelho esfolado e outras 
possibilidades. Mas preferi ver a cena do avesso. Quis revelar a fotografia em outro papel, com outras cores. 
  A alegria estava no risco. O desafio era a beleza daquela hora. Em vez de pensar em pequenos desastres, preferi prestar ateno nos respingos de felicidade que 
aquela cena lanava sobre mim. Por um momento, eu me deixei envolver pelo valor das pequenas alegrias. 
  Quis observar o resultado dos midos empenhos. A vida sem pressa, sem compromisso marcado, sem trem que amedronte, sem perigos iminentes, sem o risco de cortes 
e esfolamentos. 
  O menino era feliz naquela hora estreita da vida. Eu tambm. Meus ps equilibravam-se nos seus, e nossos coraes batiam em conjunto, como se uma nica artria 
nos unisse. Simbiose ou sinergia? No sei. A palavra exata eu no possuo. O que sei  que, na felicidade do menino, esta velha professora aposentada e rabugenta 
fez questo de se incluir sem receios. 
  Naquela hora, minhas artroses deixaram de existir. No havia dor nas costas nem fraqueza nas pernas. Tudo em mim era adolescente e vibrante. Meus olhos roubavam 
aquela felicidade estranha, e eu me sentia como se recolhesse sobras de um jantar rico demais para ser oferecido a uma nica pessoa. 
  A vida, a generosa vida, derramada naqueles trilhos de estrada ferroviria, ali, no silncio daquela tarde ensolarada, gritava por mim. Deixava-se recolher em 
pequenas partes. Sorria sem lbios, mas sorria com pernas, ps descalos, unhas encardidas e calas curtas. 
  A vida, a revelada vida, agora ali, to clara em seus propsitos, longe da curiosidade dos filsofos, distante do olhar conceitual dos psicanalistas e das interferncias 
disciplinadoras dos professores, sorria, esquecida de suas grandezas. 
  Outra coisa no quis pensar. Por um instante a porta do armrio no me incomodou mais. A enfermidade do Z encontrou cura e a solido das sombras deixou de me 
amedrontar. 
  O menino nos trilhos. Aquela cena me bastava. Talvez a mais pobre e a mais rica de toda a histria dos meus dias.As praas de Roma com seu calor envolvente. Paris 
e suas luzes. As peras e suas riquezas cnicas. Nada, nada se comparava ao encanto daquele instante. 
  O menino no sabia que protagonizava tudo isso. Para ele, era apenas mais uma forma criativa de descobrir o ldico que se abriga nos trilhos pesados das estradas 
ferrovirias.
  O resto era meu. O banquete de felicidade estava posto. O menino se deliciava com as iguarias servidas. E eu, eu era apenas um mendigo que recolhia os restos que 
caam da mesa. 
  Busquei minha mquina e me coloquei a fotografar a cena. Queria o registro de todos aqueles movimentos, para neles descobrir, quem sabe, a morfologia da felicidade. 
  No mesmo dia eu me pus a revelar as fotografias. Aos poucos, pela fora da tcnica rudimentar de trazer de volta ao papel o momento passado, a luz foi revelando 
o menino e sua cena feliz. 
  Mas at hoje uma dvida ainda me ocorre. Quem revelou quem? Eu revelei as fotografias ou foram elas que me revelaram? 
  Em branco

  O desacato da tarde
   Antes eu tivesse dito no. Assim teria evitado o constrangimento terrvel que durou uma tarde inteira. O Manoel ali, a mulher, os filhos, a mesa posta, composio 
de um retrato, moldura barata que chegava a me embrulhar o estmago. S no solicitei um ch de boldo  comadre Cininha porque no gosto de dar trabalho pra ningum. 
  Eu bem que poderia ter ficado em casa. Servio  o que no me faltava. As quitandas da semana ainda por fazer, um reparo no uniforme de Helena, e eu ali, bancando 
a simptica. 
  Isso  que d no ter coragem de dizer a verdade. A comadre que se virasse com as visitas dela. Eu j no convido ningum pra ir  minha casa justamente porque 
no suporto deixar minha rotina. Alis, detesto visita. Sou igualzinha ao Paulo, marido da Valria, que diante da possibilidade de receber algum em sua casa j 
dava um jeito de adoecer. 
  O recurso  infalvel. Uma tuberculose mantm as visitas a quilmetros e quilmetros de distncia. Quem vai querer dividir o ar contaminado de um moribundo? Quem 
vai expor a sade aos riscos de uma contaminao indesejada? 
  No sei, no, mas acho que a comadre Cininha agiu de m-f comigo. A princpio, queria que eu preparasse um manjar de coco para servir s visitas. Nada mais que 
isso. Manjar e s. Disse que estava apertadssima com umas entregas de costura e que no poderia receber de qualquer jeito as visitas que viriam. Prontamente eu 
me dispus a realizar a tarefa. 
  Na cozinha, eu no sei o que  ter preguia. Sou mulher de forno e fogo. Aprendi desde cedo a arte de cozinhar em grandes quantidades sem perder a qualidade. 
Sou mulher de tachos e tachos de doces, compotas, quitandas, manjares, assados. Agora, no me pea simpatia. Quando a comadre me perguntou se eu me importaria de 
vir tomar o caf da tarde com as visitas, j senti meu corao me pedindo pra no ir. Contrariada, acabei aceitando o convite. 
  Quando vi a mesa posta, as crianas relutando em aceitar as regras da civilidade, a mulher do Manoel gritando, tentando acomodar os pequenos diabinhos, pensei: 
"O que eu estou fazendo aqui, meu Deus?!". A j era tarde. A comadre Cininha me pedia socorro com os olhos. Menos de duas horas depois da chegada da famlia visitante 
a anfitri j somava um prejuzo de dois vasos de porcelana quebrados, urna porta sem trinco e um elefante de cristal sem a tromba. 
  As infames criaturas corriam pela casa com uma destreza invejvel. Os tapetes, obstculos naturais, no representavam nenhuma intimidao. 
  Eram quatro meninos e uma menina. Uma escadinha. Para o inferno, digo de passagem. Os meninos no sabiam o significado da palavra "quietude". Visivelmente hiperativos. 
Nenhuma avaliao psicolgica era necessria para essa constatao. 
  A menina tinha um agravante. Era dotada de uma maldade sem alarde. Ela no corria nem era afeita aos gritos. Era aquela espcie de bicho vigilante que, de to 
cauteloso, parece no tocar o cho. Uma pantera, no sei. Com passos leves, mas constantes, andava pela casa e vez ou outra puxava levemente os objetos de seus lugares. 
  Sentada  mesa, limitava-se a puxar a toalha em sua direo. A me pedia que parasse. Imediatamente ela detinha o gesto, corria o olhar por todos e segundos depois 
recomeava. Era um ciclo. A me voltava a falar: - Para de puxar o forro, Maria Letcia! - De novo os olhinhos meigos, a doce expresso que convencia a todos de 
sua candura, menos a mim. Os olhos aparentemente inocentes escondiam uma bruxa m alojada naquele corpo franzino. 
  No abri a cara pra ningum. Quando a Maria Letcia me olhava, eu tinha vontade de fazer lngua pra ela, mas pensei que pudesse soar mal numa mulher da minha idade. 
Eu a olhava tentando fulmin-la com meu olhar disciplinador. Estava certa de que ela percebia meu dio, e isso me trazia uma pequena satisfao. 
  Se pudesse, eu a retiraria da mesa e lhe aplicaria um bom corretivo. Faria do mesmo jeito que meu pai fazia conosco quando a disciplina no era observada.  de 
pequenino que se torce o pepino, dizia ele, to cheio de motivos pedaggicos. 
  A tarde ardia impiedosa. Espartana, cruel e irada, tentei mastigar uma bolacha de amendoim que estava localizada nas proximidades de minhas mos. Imediatamente 
o amargo prevaleceu no sabor. "A comadre exagerou no bicarbonato", pensei. 
  Bicarbonato  s pra dar um toque final, mas pelo jeito a medida foi desobedecida. Por um instante quis esbofete-la, propor-lhe um curso de culinria ou sugerir 
maior ateno s medidas dos ingredientes. Quis lhe dizer uns desaforos, acus-la de me retirar da minha casa, perturbar a minha paz e me colocar diante de uma imagem 
viva do inferno, mas achei que seria grosseiro demais. Contive-me. 
  Procurei engolir a bolacha com a mesma tcnica que havia desenvolvido para engolir o ch de boldo-do-chile em dias de m digesto. Busquei consolo numa xcara 
de caf. H menos possibilidade de erro.  s colocar o p no coador e derramar gua quente. Errei mais uma vez. O gosto do caf me recordava a famosa expresso 
"gua de batata". Um mpeto de dio e impiedade tomou conta de mim. Naquele instante meu desejo era me colocar de p e derrubar violentamente a mesa na direo da 
comadre Cininha. Contive-me mais uma vez. 
  "Nem um caf essa infeliz soube coar, meu Pai do Cu!" A prece s avessas quase ganhou voz. "Sa de casa para ser desacatada", pensei. "J no chegam as contrariedades 
que aparecem sem convite? A vida j me oferece diariamente uma medida generosa de dissabores, e eu, livremente, cruzo a soleira de minha casa em direo  rua para 
me contrariar ainda mais?" A filosofia de almanaque me consumia. 
  Continuei  mesa. Tudo tinha o poder de me provocar. Os retalhos da existncia, as conversas nada interessantes, a tosse desagradvel de Manoel, o pigarro quase 
canceroso, o cigarro aceso, o ambiente fechado. "O inferno  aqui", conclu. 
  Tudo agravava ainda mais o meu mau humor. Por um instante tive vontade de gritar com o Manoel como se fosse sua professora: "Para de fumar, ordinrio! No est 
vendo que o cncer j est batendo  sua porta, infeliz! Vai jogar essa fumaa na cara de sua me!". Mas eu no era capaz de pronunciar uma s palavra. A vida me 
digeria assim como o estmago digere uma ma. 
  O olhar de Maria Letcia estava grudado em mim. Ela parecia me desafiar. Eu tambm no deixava por menos. Preguei meus olhos nos dela, desejosa de que lesse meus 
pensamentos. Que menina insolente! Como  que uma estrutura fsica to mida podia me incomodar tanto! 
  Ela mastigava um pedao de po com quase meio quilo de margarina. Tomara que lhe causasse uma disenteria, desejava-lhe em silncio. A boca suja lhe conferia um 
aspecto ainda mais abominvel. 
   Enquanto eu a observava, pude concluir: Maria Letcia era a minha maior inimiga. Eu estava decidida. Eu a odiava com todas as minhas foras. O dio era tanto 
que, se por acaso ela necessitasse de uma transfuso de sangue, e fosse o meu o nico sangue compatvel no mundo, ela morreria exangue, morreria seca. 
   A comadre Cininha me perguntou se eu havia gostado da bolacha de amendoim. Ignorei totalmente a pergunta. Pudesse eu dizer a verdade e ela nunca mais olharia 
na minha cara. 
   Manoel perguntou-me do paradeiro do Geraldo Gardnio. Respondi com uma boca torta. Ele entendeu que minha boca torta estava dizendo que eu no sabia. Aproveitei 
a boca torta e direcionei o rosto para Maria Letcia. A careta estava feita e, ao mesmo tempo, justificada. 
  Maria Letcia fez uma careta pra mim tambm. Achei timo. No a careta dela, mas o fato de ela ter entendido a minha afronta. Ela finalmente pde confirmar a informao 
de que eu no a suportava e que no fundo do meu corao nutria um dio mortal por ela. 
   Por um instante, um contentamento tomou Conta de mim. Eu no tolerava a possibilidade de pensar em algo que lhe fosse favorvel. Diante da sua careta para mim, 
conclu que ela compreendera nossa inimizade. 
  Maria Letcia no tinha nem meio metro de altura, mas parecia enorme sentada  mesa. Sentia-se a dona do ambiente, da casa, da mesa, das bolachas de amendoim, 
do manjar de coco, da situao. Parecia convicta de que todos estavam aos seus ps, prontos para lhe satisfazer as vontades. 
  Menos eu. Ela que no contasse comigo para nada. Eu no reconhecia sua soberania. Sobre mim ela no triunfaria. 
  Olhava para as crianas de Manoel e uma imensa alegria me consolava: "No so minhas! No terei que lev-las ao colo, recolh-las adormecidas, preparar-lhes cama, 
descanso. No terei que olh-las com ternura nem lhes tomar as lies de escola. Ah, quanto consolo h nesse pensamento, meu Deus!". 
  Por vezes, a vida s  suportvel na comparao, conclu. Outro pensamento, um segundo, tambm me serviu de consolo: o tempo passa. A mesa ser desfeita, Manoel 
voltar para casa com sua tralha, com sua esposa, com seus filhos e seus catarros escorrendo. Eu no teria que olh-los por muito mais tempo. 
  Essa poro de vida, esse sabor insuportvel, que por ora sorvia, passaria. Se aquela cena fosse definitiva na minha vida,juro que preferiria a morte. Que passasse! 
Queria Maria Letcia longe de mim. Queria distncia daquele pote de bolacha. Queria o caf derramado na pia, escorrendo pelos encanamentos enferrujados daquela casa 
antiga. Queria Manoel exposto ao trabalho escravo, forado, numa plantao de fumo. Queria a mulher dele com as pernas inchadas de tanto lavar roupa. Queria a Maria 
Letcia com dor de dente, febre alta, chorando, apavorada, sozinha, no quarto escuro. 
  "O que vim fazer neste lugar?!" Era a nica pergunta que me fazia. Quanto constrangimento, meu Deus! Em casa, a vida no silncio, o conforto das paredes altas, 
os mveis no lugar, a viuvez consolada, a solido acompanhada, sem rudos. Helena  uma neta adorvel, e, alm de sua presena discreta, minha casa  minha melhor 
companhia. 
  A manta sobre os sofs da sala de estar  um convite para um sono depois do almoo. Antes tivesse ficado l. Minhas melhores companhias so os retratos que trago 
na parede. Retratos no correm, no gritam, no pedem alojamento, no enchem a boca de margarina. 
  Outra vez Manoel me fez perguntas. No entendi nada do que fora perguntado. Apenas sorri amarelo e com desprezo. No quis dispensar a ele o tempo breve de uma 
conversa, nem um dedo de prosa. 
  Os meninos ainda corriam pela casa. O barulho parecia crescer ainda mais  medida que minha pacincia se esgotava. Vez ou outra, paravam perto da mesa e nos acotovelavam 
para retirar alguma iguaria. 
  Po de queijo, broa de milho, bolachas de amendoim e o tal manjar de coco que foi a origem de toda a desgraa. 
  "Pena que no posso voltar no tempo!", pensei, encharcada de infelicidade. Soubesse antes que o manjar seria servido nessa ocasio, e com esses personagens, certamente 
teria colocado uma lata de creme de leite com validade vencida, s pra ter o prazer de ver a famlia, vtima de intestinos aflitos, aos gritos, impaciente, acotovelando-se 
para chegar ao banheiro. Maria Letcia seria a ltima da fila. 

  Os amores e suas incongruncias
  Eu quis a crena do passado, mas o tempo no sabe perdoar. No h esquecimento nem recurso a que se possa recorrer. O que tenho hoje  esta novena sem graa recebida, 
esta promessa engasgada de que Deus se ocuparia de meus pedidos antes mesmo do trmino da ltima jaculatria. 
  Quero  esquecer essa desfeita. Talvez seja uma boa oportunidade de repensar minha relao com ele. 
  Pensei em grunhir, gritar desaforos na porta da igreja, atentar contra o dogma que afirma a sua suprema onipotncia, suspender definitivamente o meu pagamento 
do dzimo, mas de nada valeria. Tenho receio de que cedo ou tarde venha a sentir outra aterrorizante necessidade e dele volte a precisar. Com isso, ficaria privada 
de qualquer manifestao de desespero, orfandade. Com Deus, o melhor  no ter querelas. Mesmo que ele no me atenda,  sempre bom poder gritar as minhas preces 
na janela de sua casa. 
  O inchao nas minhas pernas voltou. Com ele veio tambm o esprito de impotncia. Quis reunir outras razes para uma visita ao mdico, mas achei por bem no procurar 
por elas. A sade que quero no vir dos consultrios. Tenho vivido e experimentado enfermidades que no so fsicas. De nada adiantaria radiografar o meu peito. 
O que encontrariam? 
  Amor estragado pode ser radiografado? No creio. Minhas carnes no revelariam absolutamente nada do que sou. O invisvel  o que me define. O que est  vista 
no me revela. Minha palavra no alcana o que desejo dizer sobre o que ando sentindo. 
  Minha cabea tem dodo tambm, mas dor de cabea  muito pouco para me fazer buscar recurso. Toda cabea di.  nela que o medo lana suas razes. Medo di. O 
sono que no chega  filho do medo. A insnia me desespera.  na calada da noite que mensuro a ausncia que o amor me trouxe. Sofro porque ele no chegou. Saudade 
de um corpo que no vi, de um homem que nunca bateu  porta. 
  Meu sofrimento no tem memria. No pertence ao tempo porque no tem registro na realidade. S aconteceu no sonho, no lugar onde a esperana lana broto, faz canteiro. 
  Penso nos grandes amores. As tragdias amorosas nos revelam que a angstia suprema  sempre revestida de glria, herosmo. O calvrio de Cristo, a torre do sacrifcio 
onde os amantes foram mortos, a forca do arrependimento, em todos esses cenrios de amor, por mais que estejam cravados de um significado triste, prevalece lima 
herica coragem de morrer por uma razo absoluta, Incontestvel, universal. 
  Cansei de esperar por essa razo. J no tenho mais idade para esse sacrifcio. J no tenho disposio para qualquer forma de herosmo.As esperanas do amor j 
passaram diante dos meus olhos. Viraram a esquina de minha vida. Por causa de minhas pernas cansadas, no corri atrs delas. 
  Ando preferindo a solido de minha sala de estar. Nela h mistrios que o tempo me ajuda a recolher. Eles se escondem por todos os cantos. Ficam impregnados nas 
realidades materiais e emprestam eternidade ao temporrio, ao transitrio. 
  Os mveis so curiosos. O relgio da sala parecia perceber a minha eterna ansiedade com o tempo. Gostava de lhe confidenciar minhas satisfaes mais ousadas. Ver 
os rapazes de calas curtas em dias de temperatura elevada. Observar o jeito de andar de Etalvina e imaginar como foi a sua noite com o Ferdinando, o marido de fama 
reconhecida. Prazeres ocultos que no acresciam em nada os pecados do mundo. 
  Maria Clia  nome bonito demais para a menina mais nova do compadre Celso. No combina com ela. As feies no dizem o mesmo que o nome. H uma discrepncia entre 
a feiura da moa e a beleza do nome. Bem que poderia ser Jovina. 
  O mesmo acontece comigo, s que ao contrrio. Nunca me conformei com esse nome de pssaro que meu pai resolveu me dar. Juriti  nome que me expe ao pecado do 
dio. 
  Pecado  coisa que no sei explicar. S sei cometer.  Aprendizado que no carece de professor.A vida se encarrega de nos iniciar nessa atividade to desastrosa. 
Herana admica da qual no fao questo nenhuma de participar, mas no tenho escolha. Meu nome consta no inventrio, e no tenho como retirar. Recebo, querendo 
ou no. 
   O amor  uma coisa sem jeito. H muitas variaes no seu bojo.A uns, quero para dividir o jantar, o conselho, a vida, os sonhos.A outros, quero sem calas. Ser 
que algum j conseguiu reunir a comida e a nudez? .No sei. 
  Meu marido foi um grande amigo, e s. Nunca o desejei de verdade. O casamento aconteceu por causa das convenincias percebidas e apontadas por todos.  o marido 
ideal! - diziam. Acreditei. 
  A crena no durou muito tempo. Levei dois dias para descobrir a incongruncia entre os amores. O casamento j estava consumado. Estrada onde nenhum retorno era 
possvel. A razo. Nasci no tempo das realidades definitivas. Durante trinta e dois anos dividi meu leito com meu melhor amigo. O amante existia, mas s na imaginao. 
Nunca tive foras nas pernas para ir busc-lo. O pecado atiou, mas no me convenceu. A moral crist no  cartilha que joguei fora. Trago a lei de Deus amarrada 
nas virilhas. 
  Minhas filhas no sabem que meu marido no era meu amante. Sempre fui uma esposa devotada e de total dedicao ao lar. Melhor assim. A verdade no pode ser o prato 
principal.  sobremesa. Quando a quantidade  grande, enjoa. 
  Minha hora parece durar mais que sessenta minutos. O relgio da sala sabe disso. s vezes penso que ele envelheceu tambm. Trabalha mais lento, perdeu a destreza, 
no sei. Os relgios no escapam ao motivo de seus movimentos. So vtimas do prprio veneno. Os amores tambm. 
  Desconfio de que Ordlia, minha prima-irm, tambm tenha sido vtima de um casamento pautado no amor fraterno. Nunca percebi nem um ar de desejo entre ela e Joo 
Cirino. A solicitude era demais entre os dois. Tira cadeira, puxa cadeira, abre porta, pega bolsa, mas nada parecia sugerir alcova, olhares desejosos. Joo lhe dispensava 
um cuidado exacerbado, como se cuidasse de uma me doente. No sei, mas acho que isso  coisa de quem ama sem desejo. 

  Deus que me perdoe esse pecado, mas sempre apreciei a fria do compadre Estvo. De vez em quando a comadre Lucola chegava com braos roxos e orelhas marcadas. 
Eu perguntava o que havia acontecido, e ela sorria. - Foi o Estvo essa noite! - confessava com a voz equalizada nos tons da vergonha e da malcia. Eu ficava imaginando 
o que provocava aqueles verges roxos. Quem me dera acordar roxa e embriagada de tanto amor pelo meu marido! 
  Esses desejos eu os guardo a oito chaves. Sete no seriam suficientes. Uma chave a mais dificulta o trabalho de abrir a porta. H mais belezas escondidas nos vos 
das realidades que nas suas aparncias. As insinuaes so sempre mais interessantes que as declaraes. Gosto de preservar os segredos, trancar a boca, ocultar 
a palavra. 
  Sempre admirei a maneira como a Adalgisa Goulart administrava os segredos da famlia. Gravidez, doenas, dividas. Tudo era mantido fora do conhecimento pblico.H 
quem diga que at simulou uma gravidez com o intuito de preservar dos comentrios o marido infiel. 
   Sabendo que Justino havia engravidado uma ordinria, calculou o tempo que a criana levaria para vir ao mundo e resolveu passar-se por grvida. Os comentrios 
mais detalhados sugerem que houve acordo entre as partes. A criana seria entregue no momento exato do nascimento.  ordinria no foi concedido nem mesmo o direito 
de oferecer o peito para a primeira mamada. 
  Ningum sabe ao certo a verdade. O que se sabe  que, por ocasio do Natal de 1968, a famlia fez uma viagem que durou mais de dois meses. 
  Adalgisa foi grvida e voltou com Rosa Maria nos braos. Um ano depois, nasceu Maria Alfonsa, a ltima das filhas. O engraado  que todas elas so muito parecidas, 
de maneira que se torna muito difcil um palpite a respeito do caso. 
  O amor tem as suas estranhezas. Perdoar  um gesto que quase me quebra as pernas.Adalgisa deve ter engolido muito sapo por causa dessa histria. O esforo se justifica 
no desejo de que o amor se prolongue no tempo. Decerto ela conseguiu se casar com um homem que se desdobrou bem nas funes de amante e amigo. Feliz dela! 
  Quero  uma mala de roupa pra lavar. Quem sabe assim o cansao do corpo me faa dormir melhor. A noite picada  um desacato para uma mulher da minha idade. Alm 
das lembrana e seus alaridos, minha carne volta a ser adolescente. Olho para o meu corpo no espelho e concluo: o amor fez falta por aqui. O descompasso no peito, 
o vacilo das pernas, as mos sem controle...  
   vida que no vivi!  desequilbrio que no experimentei! Fosse o meu marido tambm amante, quem sabe assim eu amaria um pouco menos as mentiras dos homens. 
  Em branco
  A mulher que no sabia esquecer
  O aprimorado da vida prima por ser falho. O primo primeiro de Lencio desistiu da vida. A famlia no quer acreditar no acontecido. Chora e chora e reclama. Entre 
um choro e outro, uma garrafa de ch se presta para consolo. O lquido quente na boca distrai a lngua com quentura, atrasa a palavra blasfema. 
 Algum tenta entender o fato com uma indagao entre suspiros: 
  - Mas no  possvel que ningum tenha socorrido o homem a tempo! 
  No, o socorro no estava  soleira da porta, pronto para desempenhar sua funo especfica. Heleninha estava no salo da Marlene. A touca trmica ajudava a fixar 
a cor artificial nos cabelos. 
  Ainda era cedo. He1eninha havia combinado o dia no silncio de suas ansiedades. Cabeleireira s 7, manicura s 9, e depois passar na costureira para pegar o conjunto 
de saia e blusa que lhe cobriria o corpo para presenciar o casamento de sua sobrinha Rosa Luiza. O resto do mundo ainda dormia naquela hora. 
  A desconfiana  de que ele tenha cortado os pulsos logo que Heleninha puxou a porta da rua. No esperou nem mesmo o tempo de um retorno provocado por um eventual 
esquecimento.de chaves. 
  Ele sabia que Heleninha no sabia esquecer. Obcecada e convicta, orgulhava-se constantemente de sua pressurosa vigilncia. 
  O Ablio verdureiro conhecia de perto essa sua virtude. Certa feita, perguntou com delicada gentileza se ela no estava esquecendo nada. Prontamente ela respondeu: 
  - No sou mulher de esquecimentos. Eu s sei lembrar! - completou, como se quisesse se referir aos assuntos que resguardassem uma relevncia maior que um ocasional 
esquecimento de verduras. 
  O primo primeiro de Lencio sabia muito bem que Heleninha no era mulher de esquecimentos.Amargou boa parte do tempo que durou sua vida - quarenta e dois, segundo 
informaes duvidosas, coisa de gente estranha, que fica sentada no sof da sala desempenhando a funo de ocupar espao, porque velrio sem gente  muito triste! 
A razo da amargura: um deslize extraconjugal, coisa rpida, um a.ffaire que no chegou a durar nem dez minutos e que fora presenciado por Heleninha. 
  O primo primeiro de Lencio sara para comprar cigarros. Heleninha recordou-se de que precisava de fsforos. No deu tempo de pedir. Precisou gritar, mas o grito 
no dobrou a esquina, terminou longe dos ouvidos a que se destinava. Heleninha tinha voz delicada demais para gritos, por isso precisou correr atrs dele. 
  Ao chegar, a cena j estava composta. No havia o que explicar. Os olhos da outra mulher estavam ali. Os olhos do primo primeiro de Lencio tambm. Heleninha viu 
de longe. Tudo era to vivo e inegvel quanto o tempo, o calendrio e sua ruidosa lixa de unhas. 
  A cena se desfez, mas o perdo no veio. O flagrante descosturou a confiana do corpo, abalou o desempenho da alma, que ressentida resolveu se esconder feito poeira 
debaixo do tapete. 
  Vez ou outra, o primo primeiro de Lencio quis comentar com Heleninha o acontecido, pedir perdo, assegurar-lhe a insignificncia do fato, mas Heleninha no sabia 
esquecer. 
  A verdade  que Heleninha era mulher de poucos registros, visto que a vida parecia estacionar os seus bondes em horas passadas, em carreatas j cumpridas e em 
bilhetes de professores advertindo de mau comportamento. Ainda trazia na carne a vergonha do primeiro sangramento, o desconforto pblico que a exps de maneira to 
humilhante e dramtica. 
  Agora ali, naquele estado de viuvez culposa, limitava-se a receber os cumprimentos sem dizer palavra. 
  Tinha diante do nariz o cheiro da morte do marido, o primo primeiro de Lencio. O primeiro de tantos que no vieram. O primeiro e nico. O primeiro e s. O nico 
amor, a nica decepo, a nica tragdia. Tudo ali se revelava final diante de seus olhos, demonstrando a reduo existencial a que se submetera. 
  Por um instante, uma sombra de devaneios a desperta para pensar o impossvel e o impraticvel. O amante a lhe roar os ombros, oferecendo-lhe condolncias. A jia 
rara a lhe enfeitar o dedo. Um leno oferecido, e com ele a doce certeza de que o marido morreu de cncer depois de longos e longos anos regados de cuidados e esponsal 
dedicao. Doena que justificaria o amante solcito, pronto para ajudar a suportar a pesada carga que a enfermidade do marido certamente lhe trouxera, mas no. 
A vida no foi assim. A jia no est no dedo, e amante no h. O que h so coroas de flores a dizerem frases piedosas, crists, oportunas, ocasionais, mas sem 
nenhum poder de lhe curar a culpa. 
  O silncio do quarto acentua sua aflio. Olha o relgio e se recorda do casamento de Rosa Luiza. A essa hora o bolo j estaria servido. Um doce imaginrio se 
mistura ao amargo real. 
  A roupa preparada ainda espera pelo corpo no cabide. Em vo. O azul royal  um despropsito para vestir um corpo de mulher em dia de sepultar marido. A rosa da 
lapela agoniza em sua cor feliz. O dia no prope alegrias; ao contrrio, sugere culpa, choro, pequenas caridades, incmodos fsicos e olhares contritos. 
  Heleninha tem tudo isso e muito mais. Uma dvida na funerria lhe recordar o luto em doze prestaes sem acrscimo. 
  Tem tambm esmalte nas unhas. Pelculas delicadas que disfaram a condio de dona de casa. Cores ocultando que as mos so afeitas a temperos, batatas e costuras 
de reparos. A dama se sobrepe por ora. Chora com delicadeza amvel, como se reivindicasse o direito de retornar no tempo, de adormecer naquela hora e acordar na 
cena em que uma estranha se insinua ao seu marido, o primo primeiro de Lencio. 
  A cena se refaz. Heleninha v de longe. Trava o grito que pediria os fsforos. Aproxima-se. O salto da intrusa equilibra-se em meio aos paraleleppedos. O desaforo 
tambm. Os cabelos oxigenados iluminam os ombros desnudos. Heleninha chega, puxa o marido pelo brao e o distrai da ordinria, impedindo a troca de olhares, como 
quem protege o filho de serpente no quintal. 
  Comprados os cigarros e os fsforos, necessidades daquele momento, juntos atravessariam a rua, a praa, a outra rua, o porto da casa, a porta de entrada, a sala, 
o quarto, a vida, a inteira vida, e assim estariam resguardados da necessidade daquele esquecimento. 
  Uma tosse seca interrompe sua reconstruo existencial. Adelina aproxima-se solcita a oferecer-lhe um analgsico. Mas quais so as dores a serem sanadas? Alma 
quebrantada? Culpa por assassinato doloso? Quem dera! 
  No h cura para a dor dessa hora. No h alento para o sofrimento desse tempo. O que h  um desalento custico, misto de arrependimento, amor represado, economia 
de gestos e prazeres renegados. 
  Um cheiro de fritura toma conta do ambiente. Algum busca consolo num pastel de carne. Redeno em pequenas doses, prazeres permitidos e reservados para os dias 
trgicos. 
  Heleninha apenas respira. No vive. Perdida na certeza de sua solido, admite, pela primeira vez, a possibilidade de esquecer toda a sua vida, de ver cair do cu 
um homem que arrombasse a sua alma, que desobedecesse s duras regras domsticas que promulgara e que enxugasse as mos sujas de graxa em suas toalhas sempre alvas 
e bordadas. 
  Um homem que a fizesse esquecer a culpa, o amor no amado, o perdo no perdoado, o vestido nunca vestido, a roupa azul royal do cabide, o decote da ordinria, 
a vida passada, mas sobretudo o seu dom de no saber esquecer. Algum que lhe trouxesse a graa de um novo tempo, de um novo caminho. 
  Mas onde estaria este homem? Teria ele bigodes? 
   nesse momento de ilustraes imaginrias, conspiraes pecaminosas e insinuaes mnimas de felicidade que uma voz grave formula uma frase de condolncias, recheada 
de palavras incomuns, nos ouvidos de Heleninha. 
 A mo estendida, o brilho dourado do relgio entre os pelos do brao a faz esquecer de tudo, pela primeira vez. 
   Lencio, o primo primeiro de seu marido. 

  A mulher e a velhice  
  Ser velha no  fcil. Est tudo to prximo de mim.  tudo to estreito. Esse corredor que me leva at a cozinha afinou com o tempo ou foram minhas ancas que 
ganharam vantagem? 
  No tenho a palavra certa para falar com Lindalva. Erro cada vez que a ela me dirijo. Recorri ao ofcio de Nossa Senhora da Penha, desejosa de recuperar a pacincia 
da poca em que era moa, mas de nada adiantou. No h reza que possa paralisar o tempo. Ver-me rabugenta  quase um corte na lngua. O sangue da vergonha corre 
e escorre pelos cantos da boca imaginria. Lindalva sofre de juventude. Tem nimo demais dentro da alma. A pele to cheia de vio  uma afronta aos meus olhos. Sofro 
de velhice. Tenho nimo de menos dentro da alma. Talvez seja por isso que nossas conversas nos remetem ao campo de batalha. 
  Eu queria uma dzia de ovos de galinha caipira para amassar o po de queijo de que meu filho Modesto tanto gosta. O dia  de chuva, e o apetite fica mais apurado. 
A vida pede amor sem sofisticao. Amor debruado na mesa da cozinha, perto das panelas, com caldo de chuchu. O amor  uma religio onde o tero  rezado com as 
pontas dos dedos e com os lbios cheios de maternidade. 
  Gugermiro insiste em que vai conhecer a mulher dos seus sonhos. Escuto e rio sozinha. Dou a desculpa de que me lembrei de uma peraltice de Laurinha, e fica por 
isso mesmo. Desde quando mulher dos sonhos existe? O que existe  a mulher que beira o tanque e tem sabo nos cantos das unhas.A mulher com cheiro de alho na hora 
do almoo e alfazema no fim do dia. Quem quiser mulher dos sonhos que passe a vida dormindo. 
  Mulher  realidade crua.  menstruao descendo pelas pernas,  peito cheio precisando de compressas pra acalmar a dor.  gs acabando na hora de fritar o ovo; 
 pedido de socorro para que as latas de banha sejam guardadas no armrio da despensa sem prejuzos para a coluna. Os pesos que as mulheres suportam so outros. 
  Mulher dos sonhos! Tenha pacincia! Eu quero mais  que ele resmungue at o fim da vida, e que na hora da morte no sobre mo desocupada para segurar a sua. Quero 
v-lo continuar sonhando. Haver de cruzar os umbrais da morte sozinho, e bem acordado. 
  Estou desconfiada de que a filha do Juvncio Martins esteja apanhando do marido. Desaforo. O ordinrio gosta de bancar o macho aonde vai. Macheza que pra mim  
o mesmo que nada. Mulher no precisa de macho; precisa de homem, e s. Macho  superlativo desnecessrio. Eu bem sei o que digo. Fui vtima durante vinte e oito 
anos de um portador de testculos insuportvel. Era macho. Gostava de arrotar em pblico, fumava cigarro de palha e cuspia pelos cantos da casa. Um nojo. Amanhecia 
mal-humorado e anoitecia azedo. 
  S suportei as agruras desse calvrio porque assimilei bem a minha condio de degredada filha de Eva. Felicidade? S as inesperadas. Uma chuva em fim de tarde, 
o vento frio na janela, o ch de hortel com biscoito de manteiga. A vida, a pequena poro servida numa bandeja esmaltada de um vermelho vivo, contrastando com 
o opaco da existncia. Um andar suspeito, um malefcio feito, um decote de mulher atrevida e uma tosse de macho predominante. A noite tinha histrias infelizes. 
A casa, o interior das causas, a vida segredada em pequenos envelopes encardidos, as paixes proibidas que o tempo resolveu romper. Uma fechadura observada, dia 
e noite, a redobrada ateno para que a geladeira no fosse esquecida ligada nas noites de trovoada. 
  Outro casamento? Outro calvrio? No quis. Bastou-me a subida sem Cirineu. O resto foi canto de Vernica que no ouvi, leno que deve ter ficado cado pelas ladeiras 
de minha via-sacra. No voltei pra buscar. 
  O mundo ficou mais estreito ou fui eu que engordei? No sei.Voltei ao colgio da minha infncia e fiquei abismada com a estreiteza dos corredores. Mas no houve 
mudanas! As construes so as mesmas! Mas onde esto os corredores amplos do meu tempo de menina? Esto no mesmssimo lugar. Nada foi modificado. O que h  a 
viso adulta que diminui os encantos. 
  A ala do vestido me recorda a juventude perdida. Essa pele crespa, esse ressecamento que no h creme que contenha. Eu caminho nas estradas dos contrrios. Enquanto 
o mundo se estreita, eu me alargo. As medidas denunciam que estou me esparramando aos poucos, como se minha desintegrao estivesse se antecipando. Olho no espelho 
do quarto e no caibo mais inteira dentro dele. O que sobra  o que deveria ser perdido, mas no h receitas mgicas. Com o tempo, tudo  mais penoso. Um grama na 
velhice  um quilo na juventude. Essa desproporo me assusta. O medo tambm. Companheiro inevitvel.Antes, a coragem herica; hoje, o despropsito absurdo de minhas 
colees de receios. 
  Os medos so muitos. Temo a goteira em dias de chuva e temo a tramela da janela do quarto.Tudo  to vulnervel na velhice. A porta que range na calada da noite 
me esfria a espinha. A explicao de antes, de que  o vento contorcendo o que pode da madeira,j no basta pra me fazer voltar ao sono. 
  A velhice multiplica as inseguranas. Os comprimidos tambm. Osteoporose  um gato de estimao que todo velho tem. Fica sentado, beirando as pernas, nos mastigando 
aos poucos. Eu me sinto um retrs de linha sendo puxado pela vida. Fio de l que vai se desprendendo do novelo, caindo aos poucos, desenrolando-se e se perdendo 
pela sala. 
  No queria ser novelo. Queria  ser novela! As mulheres das novelas no envelhecem. Brincam de ser mulheres de maridos, mas no so. Apagam-se as luzes do set 
e esto solteiras de novo. Eu no queria ser a atriz. Essa tambm tem marido! Eu queria ser a personagem, aquela que morre com o apagar da luz e que volta  cena 
quando querem os autores. Eu me escreveria. Fina, m e determinada. Mas s de vez em quando. Por vezes eu seria santa e abnegada; solitria convicta. Castidade criativa. 
Quereria o instante de cada felicidade, e nele poria minha demora. O deleite sem pressa, sem feijo precisando ser retirado da panela de presso para que no seque. 
A vida de pintura, unhas vermelhas, cabelos laqueados e armados como se fosse um circo. Eu, feita de luzes e aplausos. A expresso sem marcas, sem rugas nos cantos 
da cara. O sorriso livre de cries indesejadas. A personagem sempre linda, pronta para uma atuao perfeita. A voz determinada expulsando o marido da sala como se 
fosse um co que precisa aprender a obedecer.- Sai daqui! O grito forte, quase igual ao de Dom Pedra, s margens do Ipiranga, proclamando a independncia do Brasil. 
  Meu mundo est estreito. As margens de meus rios no so largas como no passado. Meu barco  lento e meu leme  torto. Onde foi parar a graa dos meus olhos? Estreitou 
tambm? A catarata avana. O olho est menor, estrbico. No sei. 
  Minha memria me trai constantemente quando o assunto  recente. Gosto mesmo  do passado. Ele est vivo dentro de mim, mas a muito poucos interessa. Dizem que 
j no entendo muito bem o que me falam. Falam isso porque sempre solicito uma segunda fala. Pergunto duas vezes e ainda assim no entendo a resposta. Se me calo, 
 por vergonha de perguntar de novo. A omisso  uma rotina. 
 Ando pelas ruas sem ter destino. Vejo as vitrines e descubro que nada  pra mim. As roupas esto cada vez mais estreitas. Os sapatos no comportam o inchao dos 
meus ps. 
  Minha butique  a farmcia do Altemiro. Vitamina C para evitar resfriados. Aparelho para medir a presso arterial. Protetor solar fator mximo e a iluso de que 
ele conter o avano das manchas no rosto. Gosto de anti-inflamatrios. Tomo at sem necessidade.Tomo para prevenir. Quem me garante que no h uma inflamao rondando 
minhas carnes? Quero  consolar o que posso. O que no posso deixo doer. Lindalva, por exemplo. No h comprimidos que possam curar a implicncia que tenho dela. 
 pura inveja. Eu sei. 

  Felicidades imprprias
  Eu gosto mesmo  de felicidades imprprias. S elas so capazes de deslocar minha vida, mudar o rumo, o prumo. As costumeiras, aquelas que encontro nos meus lugares 
e que so prprias dos meus dias, essas no me provocam muita coisa. 
  Amanheci com saudade de Floriano.Aquele ordinrio viajou h mais de quinze dias e at hoje nem um rastro de notcia. Ando preocupada com esse silncio. Achei que 
nessas frias ele se dedicou muito pouco  famlia. Parece que a capital andou mexendo com a sua cabea. 
  Nos almoos de domingo, quase um sacramento para todos ns, ausentou-se por duas vezes. O frango com quiabo, que s fao por causa dele, nem foi mexido nas duas 
ocasies. Floriano anda muito calado. Comentei isso com o Lourival, mas ele no quis levar a conversa adiante. Defendeu-se dizendo que no tem que se meter na vida 
do filho. - Pai que  pai no tem medo de fazer perguntas! - desabafei, terminando uma conversa que nem comeou. 
  Ando cansada de ser sozinha. Lourival acha que ser marido  s pagar as contas. Nem meu fogo ele anda apagando. Desabafei isso com Marinalva. Imediatamente ela 
se ps a chorar. Nem pude continuar meu desabafo. Confidenciou-me que h mais de quatro anos o Rufino no encosta o dedo nela. Fiquei admirada. Logo Marinalva, que 
ainda est to bonitona! 
  Tambm no sou mulher de se jogar fora. O problema  que Lourival no est atuando como deveria. Talvez seja por isso que ando desejando felicidades imprprias. 
Bem que gostaria de ser surpreendida por ele numa noite de lua cheia. Calores, roupas que no sejam vestidos de dona de casa, calas que no me recordem as domingueiras. 
Sei l, qualquer coisa que contrarie o convencional e que me faa querer deitar mais cedo, deixar acesa s a luz do abajur ou at mesmo passar um batom vermelho, 
coisa que nunca me permiti ao longo de toda a minha vida. 
  Batom vermelho sempre me pareceu vulgaridade, coisa que s fica bem na boca de mulher ordinria. Mas o que  uma mulher ordinria? De todo dia. Ento eu  que 
sou ordinria! A outra, a quem tem nome que no tenho coragem de falar,  que  extraordinria. Deus que me livre dessa verdade! Quero  um molho de chuchu com carne 
moda pra servir ao Lourival na hora do almoo. Ele costuma dizer que no h comida do mundo que se compare  minha. Fico toda orgulhosa, mas depois passa o orgulho. 
  Ando querendo orgulhos que permaneam por mais tempo em mim. Alguma coisa que seja duradoura e que no esfrie com a panela depois que o almoo for servido. H 
mais consolo nas palavras que nos chuchus, mas Lourival no sabe disso. Eu  que no vou contar. 
  Lourival sempre foi um bom marido. Dedicado, nunca me deu motivo para desconfiana. Ao contrrio, minha confiana nele sempre foi cega. Ser cega  um jeito bom 
de ser mulher. "O que os olhos no veem o corao no sente", minha me j repetia, com sabedoria. O que est oculto no  vivo. Repousa no silncio da existncia 
e nos priva de choros e manifestaes vergonhosas. Chorar  to vergonhoso! Tossir tambm. Tenho vergonha de tudo o que me expe frgil. Tosses e choros andam de 
mos dadas. Nascem pelos mesmos motivos. 
  Ainda no curei a minha bronquite. O doutor Sebastio Sobreira insiste que  psicolgico. Acho uma afronta ele dizer isso. Disse que doenas respiratrias so 
manifestaes de carncia. Olha o atrevimento dele! O pior  que me deu esse diagnstico diante do Lourival, que ao ouvir a frase se limitou a soltar um risinho 
de canto de boca, acompanhado da frase que no diz absolutamente nada e que todo mundo repete: -  a vida! 
  Sa do consultrio pisando duro, desejosa de demonstrar a minha ira. -  a vida! - repeti na escada, como se estivesse com indigesto. Nem o retorno eu quis marcar. 
  Visivelmente arrependido do comentrio irnico e infeliz, Lourival me perguntou se eu queria aproveitar para passar no supermercado e fazer as compras da semana. 
Prontamente aceitei. Carrinhos de compras aliviam amarguras. 
  Entrei no supermercado e quis esquecer as carncias respiratrias. Ali o mundo flua diferente do universo dos consultrios. 
  Queria esquecer aquele quadro triste, pendurado na sala de espera. A enfermeira modelo, a mocinha bonita que nunca frequentou faculdade de enfermagem, com o dedo 
indicador pousado sobre os lbios, ordenando silncio. 
  Chega! Nada de prateleiras cheias de medicamentos, receiturios e diagnstico infeliz de um mdico que no sabe ver a mulher um palmo alm do nariz. Minha alma 
desejava o encanto das estantes cheias de produtos coloridos, recheadas de novidades, lanamentos fantsticos, anncios luminosos de promoo. Por um instante pude 
me aproximar do prazer que Eva deve ter sentido ao ultrapassar os limites do paraso. 
  Aquele lugar era minha perdio, mas era tambm o meu paraso. Pilhas e pilhas de latas iluminadas por cores que no combinam com bronquites. 
  O cheiro dos produtos, a limpeza dos corredores, a msica ambiente e de vez em quando uma voz suave no servio de som solicitando a presena da vendedora Cssia 
no departamento de pessoal, tudo faz com que o supermercado v apagando a lembrana do diagnstico vergonhoso, humilhante. 
  Aos poucos, num suave movimento de esquecimento do mundo, fui saindo de mim e misteriosamente me entregando aos encantos daquele lugar. Alegrias embaladas, prontas 
para o consumo. Ofertas-relmpago, promoes que me convenciam a levar algo de que no necessitava. 
  "Cssia, quem ser Cssia?", pensei. Cssia, um nome que desconheo, uma vida em que no esbarrei, algum que nunca encontrei. O que ser que queriam dizer a ela? 
Notcia de morte? Promoo? Repreenso? No sei. Ser que receberia uma humilhao em pblico, dessas que todo chefe boal prefere fazer s claras? Fosse o que fosse, 
tive pena de Cssia. Rezei por ela no momento exato em que Lourival me perguntou se levaramos ch de fora ou ch de dentro. - Leva a do meio, Lourival! - respondi 
sem saber, desejosa de encontrar um equilbrio que me dispensasse de prestar ateno  pergunta dele. 
  Eu queria mesmo era saber de Cssia. O que eu verdadeiramente desejava era ter coragem de largar aquele carrinho no meio do caminho e ir com ela at o departamento 
que solicitava sua presena. Chegaramos juntas. Eu lhe diria que estaria com ela em qualquer situao. "Seja o que for, eu no te abandonarei, minha adorvel amiga!", 
pensei, querendo reformar o mundo, quase discpula de Teresa de Calcut! 
  Tenho pena de quem carece. Talvez seja porque neles eu me reconhea. Admiro quem tem a coragem herica de se doar aos necessitados. Ainda no aprendi essa arte. 
Corao comovido que no manda sangue para a ao dos braos no transforma o mundo.  corao vagabundo.  corao ator, que chora s porque a cena pede choro. 
  Cssia, Cssia, eu te imagino franzina, filha de pai agressor, me alcolatra e irmos perdidos no mundo. A nica que trabalha. No tem tempo para a felicidade. 
 do servio para casa, da casa para o servio. Nenhuma vaidade, nenhum direito assegurado. Contas atrasadas, relgio de pulso sem bateria, sem dinheiro para a reposio. 
Uma receita mdica que no pode ser aviada, sem possibilidade de aviamento; uma dor nas costas que no passa, coisa sem jeito. Um corte de pano que h mais de dois 
anos espera pelo recurso do feitio. Costureiras andam careiras. Eu sei disso, Cssia, eu sei. 
  Os dedos sem anel, sem contornos dourados, prateados, sem luvas de quinze anos, sem esmalte. Os olhos sem muito brilho, a boca sem muito sorriso. A rinite alrgica, 
as espinhas esparramadas na cara, as orelhas sem brincos. Eu imaginava. 
  Voltei  realidade com a voz de Lourival querendo me fazer um agrado: - Leva um creme desses que saram para rugas! - sugeriu, com autoridade de esteticista. Uma 
felicidade imprpria me invadiu. Um corredor de supermercado no  lugar para amor carnal, mas era justamente o que eu desejava naquela hora. Os olhos de Lourival, 
o carinho da sugesto, a msica ambiente. H quanto tempo eu no via aquela cena em minha vida, meu Deus! As mos estendidas em direo  prateleira, o tom de voz 
macio, mistura de pai e amante, coisas que a outros tempos pertencem. O tempo da conquista, do primeiro toque, quando o amor ainda no diferia as funes. Era pai, 
era amante, era irmo, tudo ao mesmo tempo. 
  Mas naquela hora o que prevalecia nos olhos e na voz de Lourival era o marido amante, o homem que despertava minhas destrezas de mulher sem que isso me parecesse 
pecado. Pudera eu ser amada naquele local! Ajeitaria sem muito zelo um espao entre os desinfetantes e me entregaria feliz nos braos de meu Lourival. Outra vida 
eu no queria naquele instante. 
  Para ser bem sincera, o nico desejo que dividia minha alma, naquela frao de tempo, era ser me de Cssia. Desejo de comprar-lhe - depois do amor conjugal,  
claro -  um pacote de bolachas de coco, para que ela pudesse com-las com uma xcara de caf com leite. 
  O tempo no me poupou dos sustos que lhe so prprios. O devaneio foi cortado pelo grito de uma senhora avisando ao seu menino que, se no se apressasse, chegaria 
atrasado  escola. 
  Uma tristeza profunda tomou conta de mim. A escola  um lugar triste demais para uma criana. Olhei para o garoto e tive a sensao de que ele me pedia socorro. 
Parecia me implorar ajuda. Era como se eu estivesse diante do sacrifcio de Isaac, com a possibilidade de convencer Abrao do absurdo que estava prestes a cometer. 
O grande problema  que eu no tinha foras naquela hora. Ainda estava sem roupas, e as mos de Lourival ainda me acariciavam os lbios - o devaneio leva tempo para 
nos devolver as roupas. 
  Algum poderia salvar aquela criana dessa condenao to hedionda? Por onde andava Cssia? Por que no vinha segurar a mo de Isaac? Por que no vinha se solidarizar 
com aquele que era to miservel quanto ela? Que ao menos viesse cuidar da criana at que eu perdesse o ar de mulher extraordinria, vestisse novamente as minhas 
roupas e voltasse a parecer-me com as mes dedicadas. Ai, meu Deus, no mereo essa agonia! No bastasse a humilhao que recebi do doutor Sebastio Sobreira, agora 
tinha que suportar aquele conflito de conscincia. 
  Meu devaneio se desfez definitivamente com o anncio da promoo de frangos congelados. Que tristeza! O congelamento do frango atingiu minha alma. Lourival quis 
saber de minhas intenes em relao aos frangos. Olhei bem na cara dele e fiz questo de desprez-lo. O mesmo desprezo que eu queria ter dado ao doutor Sebastio. 
Mas esse dia vir. Ando sem pacincia para sacrifcio. Alis, ando descontente com meu desempenho na vida. Antes, era capaz de prolongados sacrifcios e penitncias. 
Hoje, mal consigo abster-me de carne na Semana Santa. Talvez seja por isso que estou to despreparada para a humilhao. Mame sempre nos alertava: os exerccios 
espirituais fortalecem o corpo. Eu s no entendia a razo das inmeras enfermidades do padre Leopoldo. Ousei perguntar uma s vez. Um tapa na boca foi a resposta. 

  A dona da funerria
  Esperana  igual uva; s  boa no cacho. Amarrei meus sapatos na Quinta-Feira Santa e s vou afroux-los no domingo da Ressurreio. Coisa boba em que ponho devoo 
s pra ter o que fazer nesses dias em que a tristeza  uma obrigao. Qualquer sorriso nessa poca  afronta aos santos.  laranjinha azeda gerando careta no padre 
Valdemar. 
  A vida no ano setenta e seis estava uma secura de dar medo. Quando caiu a ltima c:huva minha me ainda alimentava a esperana de ver gernios na entrada da cozinha. 
Secou hortel, secou manjerico, secou o cabelo das espigas, secou broto de gernio, secou minha me, e nada de cair gota de chuva na terra. Esperanas sobrevivem 
s grandes estiagens.Violetas, no. 
  Insisti muito no cultivo de girassis, mas no tenho cacife para realizar meu sonho. No sou russa, no sou Sofia Loren, e por isso terei que me contentar em correr 
no meio de um canteiro de margaridinhas. Sou apenas a atendente da Perfumaria Glria, a filial. Sou mulher mida, de passos estreitos, solitria, atrevida, mas contida 
na capacidade de esperar por milagres. 
  Meu vale  sempre cheio de lgrimas, mas no me queixo. Uma rosquinha de nata com caf com leite e a alegria retoma na pressa de um galope. Lamentar o impossvel 
 o mesmo que andar em canteiros de vidros cortados. Prefiro amar a crueza da realidade; descobrir no martrio a glria reservada aos heris e depois tomar um suco 
de morango com leite, desnatado,jeito de preservar o corao dos malefcio, das gorduras que o deixam lento. J chega a lentido dos dias. Corao descompassado 
atrai tristeza. A destreza retarda a melancolia. Eu quero esse retardo. 
  Reclamei com o Juvncio do preo da costelinha de porco. Ele desconversou igual poltico. Tivesse eu disposio e abriria um aougue s pra vender mais barato 
e, mesmo tomando prejuzo, mant-lo, at falir o seu estabelecimento. Depois pagaria minhas dvidas e fecharia o meu tambm, mas at pra desaforos estou indisposta. 
Queria mesmo  um ch de laranja pra espantar a gripe nesses dias frios. Ch e cama.A chuva fina tem intensificado ainda mais a sensao de friagem. No sei se  
a velhice que me toma, mas tenho sentido ainda mais a demora das horas. Tudo parece mais lento. 
  Ficar na janela j me deu mais gosto, mas hoje, no. A comadre Leninha leva quase uma hora e meia para fazer o percurso que antes no lhe custava mais de quinze 
minutos. Quase morro de tanto d. Parece uma lesma. A pobrezinha est ficando cega. J alertei o Arnaldo para que no a deixe ir sozinha buscar o leite na mercearia, 
mas ele disse que ela se ofende seriamente cada vez que algum toca no assunto. Ento deixa morrer. Com saco de leite na mo para humilhar ainda mais o cadver. 
  Acho to humilhante morrer. Ser exposta na feiura do ltimo desespero, no susto do ltimo suspiro. H sempre um comentarista que se encarrega de descrever o defunto 
para quem no teve como dar uma saidinha do servio para ir conferir o velrio. As frases variam. "Quem no o conhecia no o reconheceria de tanto que estava magro!" 
Claro! Quem no conhecia o defunto como  que ia poder reconhec-lo? Reconhecer o que no conhecia? Reconhecer  confirmar o conhecimento. 
  H aqueles que vo para ver se recordam o defunto em vida. Chegam em grupo, olham e depois comentam entre dentes: "No me lembrei dele, no! Voc se lembrou, comadre?". 
Ou ento: "Gente, ele passava na porta de casa todo dia! No sabia que era ele!".Absurdo.A morte nos expe tal qual animal na jaula do zoolgico. Jaula definitiva, 
inevitvel. 
  J pensei em abrir uma casa funerria. S pra fazer concorrncia ao Heliodorinho. Coisa triste esse nome, meu Deus! A gripe aviria nem chegou ao Brasil e dizem 
as ms lnguas que ele triplicou o pedido de urnas aos seus fornecedores. Est esperando um aquecimento do mercado. Pode uma coisa dessas? 
  Penso que os ritos funerrios so muito tristes. Precisamos trazer um pouco mais de alegria para os nossos velrios. Chega de defuntinho maquiado, rodeado de florzinhas 
mimosas. Eu os prepararia de maneira diferente. Na minha casa funerria, substituiria as mortalhas tradicionais por fantasias engraadinhas. J imaginou abrir o 
caixo no meio da sala, repleta de familiares contritos, e o velho defunto estar vestido de palhao? Em vez de choro, riso geral. As crianas se divertiriam e os 
adultos tambm. Em lugar de flores, pequenas bolas coloridas contornando o corpo da velha senhora vestida de odalisca. Nada de velas acesas. Isso s realaria a 
tristeza dos familiares. Precisamos driblar a hora da morte. No podemos reforar ainda mais os seus traumas. 
  Eu fico indignada. A morte no considera as diferenas. Os rituais so ofensivos para os que esto mortos. A exposio do corpo, sua expresso carregada de desespero, 
palidez. Meigos e rsticos colocados na mesma mortalha. Coisa triste e inevitvel, mas o destino de todo macho  ficar com a cara rodeada de florzinhas. 
  Podemos imaginar. A velha Carlota morreu. Vamos vesti-Ia de baiana. Vestido rendado, alvo, colares coloridos, turbante na cabea. Em vez de flores, frutas, muitas 
frutas. Fatias de melancia ao redor do rosto, abacaxis na altura da cabea, mos cheias de uvas, goiabas expostas com seus miolos vermelhos, vivos, cobrindo as pernas, 
desenhando os espaos. 
  Deixemos de imaginar. Na funerria de Heliodorinho uma pobre velha fica ainda mais velha. Crisntemos evidenciam ainda mais a velhice. As velas ladeando o enorme 
crucifixo de metal realam ainda mais a palidez do cadver. 
  No quero isso pra mim. J que no terei o prazer de morrer jovem, e de ser eternamente lembrada como "a bela moa que perdeu a vida de maneira to inesperada", 
quero ao menos o direito de ser uma morta menos feia. 
  O problema  que no tenho ningum para me ajudar nessa empreitada ps-morte. A condio de mulher sozinha me acompanhar at o sepultamento. At j pensei em 
registrar em cartrio meu desejo de ser sepultada sem exposio pblica, mas o dio que Jandira Justina nutre por mim me paralisa e me impede de tomar essa iniciativa. 
Enquanto ela for dona daquela espelunca, nenhum documento ali emitido poder me favorecer em alguma coisa. 
  Vou levando meus dias como posso. E, quando no posso, no levo. Deito na cama e quase apodreo de tanto dormir. Quase morro de antipatia quando vejo a Vera Laurindo 
sorrindo, carregando aquela trouxa de roupa na cabea. Pessoas felizes me irritam profundamente. S suporto alegria na cara de gente morta. E tem outra: defunto 
bom  defunto enterrado. Pronto, falei. 

  A mulher e o tempo
  Adentrei o estabelecimento, desejosa de liquidaes. Em tempo de carestia e prejuzos afetivos, a materialidade da vida pode nos prestar socorro. A roupa bonita 
exposta na vitrine pode nos fazer esquecer o abandono sofrido. Sei que esse esconderijo  feito de palha. Conheo muito bem a fragilidade desse unguento. Mais cedo 
ou mais tarde temos que recolocar os ps na dureza do territrio da solido. Mas toda alma merece esquecimentos. 
  O requinte do ambiente estava definitivamente firmado pelas cores sbrias que o revestiam. Fachadas e vitrines me avisavam de que, embora fosse tempo de queima 
de estoque, os valores no seriam convidativos. Mesmo assim quis me arriscar num passeio de reconhecimento do local to afamado. Precisava aproveitar a ocasio. 
Em dias de minha rotina de trabalho apertada, eu jamais me permitiria aquela aventura. S mesmo naquele curto intervalo de frias me foi possvel andar por outros 
lugares que no fossem os corredores do Hospital Universitrio. 
  A tarde era fria demais para aquela poca do ano. O inverno j havia se despedido, mas uma semana de chuvas intensas foi suficiente para que as temperaturas voltassem 
a despencar. Eu estava mergulhada em motivos tristes. Olavo resolvera ficar mais uma semana em Santo Antonio do Pinhal, mesmo sabendo que esse seria o tempo de que 
eu dispunha para estar com ele. Sugeri ir ao seu encontro, mas ele disse que no poderia me receber por l. Justificou-se com palavras confusas e desconexas. 
  A recusa de Olavo me atingiu com intensidade. Eu havia feito planos, sem levar em conta que planos que abrangem a presena de outra pessoa requerem cumplicidade 
nas intenes. Minhas expectativas eram grandes. Tencionava viver a pequena folga ao seu lado. Por vezes o amor nos pede o esquecimento do tempo. Era tudo o que 
eu desejava: esquecer o peso das horas. Sua recusa fez o contrrio: mergulhou-me numa letargia pavorosa. 
  Aps dois dias de absoluta recluso, resolvi colocar meus ps em algum lugar que pudesse me distrair de mim. Entrei no meu carro e, quando percebi,j cruzava as 
portas principais do suntuoso conjunto comercial. Tudo era muito elegante e moderno. 
  A agonia no tardou a comear. Sem conhecer sua causa, senti minha cabea pesada como se sobre ela estivesse assentada uma ciranda de crianas minsculas em ligeiros 
rodopios. Olhei para o teto e descobri a causa de minha tortura. Fixados em toda a extenso dos corredores estava um exrcito de ventiladores. No eram comuns. No 
eram quaisquer. Pertenciam  ordem de objetos raros, bem-acabados. 
  O movimento lento dos ventiladores provocou minha irritao. Fossem rpidos em suas circularidades programadas e eu no perceberia seus movimentos. 
  Eram muitos. O fato de terem sido dispostos a poucos metros uns dos outros parecia distanci-los de sua utilidade, como se deles no se esperasse frescor de vento 
provocado pela ciranda da hlice, mas a lembrana do movimento do mundo, sob o impulso do tempo. 
  Eu os enxergava sem neles fixar os olhos. Olhava-os na sombra que eles provocavam, como se o movimento contnuo tivesse cores que me atingissem em minha vertical 
condio. Eu os percebia como se fossem aves em rasantes desgovernados, bater de asas em descompassos que me expunham ao medo de que me alcanassem, me tocassem 
ou soltassem seus excrementos sobre mim. 
  Os ventiladores. No era possvel esquec-los. Existiam num revestimento de durezas, embrulhos de aos em recortes de dimenses pontiagudas, ameaadoras, obtusas. 
Pairavam sem leveza, pairavam obrigados, fixados, arquitetados numa obrigatoriedade espartana, dando-me a impresso de que cumpriam ordens superiores. 
  No pertenciam  ordem das coisas que so de natureza potica. No eram moinhos de vento, no eram moinhos de gua. Deles no se desprendiam os fios que amarram 
os significados das coisas. Deles no nasciam poemas, canes, nem sugeriam inspiraes. 
  Aos poucos fui compreendendo. Os ventiladores sacramentavam a presena do tempo. Cumpriam o ofcio de me recordar que a vida se esvaa aos poucos. Os giros lentos 
e constantes das hlices prateadas empurravam-me para um futuro que me distanciava da predileo de Olavo, um tempo em que a conquista a ser realizada o colocava 
em constante estado de viglia amorosa e fiel. 
  Os ventiladores aguavam minha percepo do imaterial. Colocavam-me diante do destino de morrer em partes, apressando-me na sina de minha inevitvel desmaterializao, 
dando-me a convico de que naquela hora ruam em mim carnes e sonhos. 
  O movimento das hlices me reportava a outra forma de movimento. O instante me ensinava. O tempo s  suportvel quando no o percebemos. Como o rio em remansos 
processos que no findam, costura de guas onde o tempo se entrelaa to cheio de destreza, infncia e coragem. A tranquilidade das guas que aos meus olhos se d 
no  sua verdade.  no mais profundo que o ser do rio prevalece. Correntezas violentas o movem, levam-no em apressados rodopios, movendo. o interior, varrendo as 
profundidades. Aquele que o v da margem nem imagina. A calmaria da superfcie no nos permite perceber que o rio est se despedindo. A tranquilidade aparente segreda 
a fria que o move. Entorpece os olhos que nas margens repousam, impedindo-os de perceber que o rio est passando. 
  A conscincia de que a vida est passando pode nos sufocar. O aprendizado j  velho dentro de mim. Nasci  beira de um rio imenso. Minhas lembranas so interessantes 
e ensinam. Meu tempo estava diretamente ligado ao movimento do rio. Eu o via de longe. Gostava de perceb-lo lento, como se estivesse estacionando para esperar por 
mim. Passava horas e horas em estado de contemplao. Sempre que podia, eu me aproximava. Gostava do medo que ele me causava. Temia aquele volume imenso de guas. 
Minha estrutura era pequena demais para tanta grandeza. 
  Os corredores repletos de pessoas pareciam rios em deslocamento. Eu estava  margem. Olhava o movimento das pessoas e tentava interpretar suas expresses faciais. 
Elas me pareciam felizes, ocupadas com suas compras, conversas ao celular. Estavam no tempo, mas absorvidas numa felicidade que lhes possibilitava esquec-lo. 
  Eu e o rio. Sua calma funcionava como uma espcie de torpor, esquecimento de mim. Fala oculta que me negava intuir os conflitos da profundidade. Queria o rio tanto 
quanto queria a mim. Querer sem ansiedades, sem pressas, sem tropeos de enganos. 
  As vitrines to cheias de cores no sabiam o que dentro de mim acontecia. Os transeuntes e suas sacolas abastecidas de inutilidades tambm no poderiam saber. 
Um corpo que anda  um conjunto de mistrios que se desloca. Aos olhos de todos eu era um rio qualquer. Todas aquelas pessoas estavam ali por razes distintas das 
minhas. 
  Eram margens indiferentes. No participavam das causas que moviam meus pensamentos. Estavam debaixo dos mesmos ventiladores, mas no os perceberam como eu. No 
foram afetadas da mesma forma. E por isso eu estava s. Absolutamente s. 

  A chamin 
  Havia qualquer coisa de estranho naquele olhar. Era como se uma culpa me atingisse e me projetasse para a necessidade de uma confisso, um jejum ou um gesto de 
misericrdia. Ele parecia conhecer esse meu segredo. Olhava ainda mais quando percebia minha tentativa de fuga. No havia palavras. A prosa era o olhar, o vocbulo 
mergulhado no silncio, embebido de pausas, to cheio de intenes. 
  Papai nunca permitia que estabelecssemos conversas com seus pees. Entrvamos, servamos o caf e depois voltvamos para recolher as xcaras. Vez ou outra eu 
arquitetava uma necessidade que me permitisse cruzar com discrio a grande sala. Ladeando os mveis, quase escondendo o rosto nas cortinas laterais, eu abaixava 
os olhos e fingia desconsiderar a presena daquele homem to desconfortvel  minha alma. 
  Eu no o olhava, mas sabia que ele acompanhava minha passagem. Tinha medo de parecer vulgar. Tinha medo de que me achasse oferecida. Queria preservar-me de qualquer 
desconfiana de sua parte. Queria apenas que me percebesse. Queria que me visse sem a bandeja, com os braos soltos, ancas mais leves, prontas para um movimento 
que no  prprio de moas de famlia. Queria que me visse distante do olhar censor de meu pai. 
  Pensar que seus olhos estavam grudados em mim trazia-me a sensao de que naquele momento ele desprendia as amarras de minhas saias. Minha nudez vergonhosa, quase 
pecaminosa, pronta para ser repreendida pelo padre Inocncio. 
  Quis muitas vezes perguntar a ele alguma coisa. Algo que me permitisse acesso ao seu mundo rude. Uma pergunta qualquer, sem razo, sem motivo. Uma pergunta s 
pra ter uma resposta em que nem poria minha ateno. Queria apenas a possibilidade de ouvir aquela voz rouca emitida s pra mim. Uma voz particular, direcionada, 
molhada de motivos secretos que ultrapassassem o significado das palavras. Faltou coragem. 
  Poucas vezes experimentei a oportunidade de t-lo a ss. Certa feita ele chegou antes do combinado e precisou esperar por meu pai. Senti a espinha doer ao me deparar 
com ele sentado no sof. Coava o bigode, pensativo. As pernas cruzadas evidenciavam as botas que lhe acentuavam o aspecto de bravura. Os olhos pareciam me agredir, 
tamanha a severidade com que me olhavam. Suportei o olhar por alguns segundos e sa, desconhecendo a direo tomada. Esbarrei o joelho na quina de um tamborete que 
ficara esquecido no meio do caminho e suportei a dor sem provocar rudos. Varei o corredor da sala e fui sentar-me  porta da cozinha, quase desfalecida pelas dores 
do joelho e da alma. 
  Outra feita, quando o relgio anunciava o meio do dia, fui buscar uns ramos de manjerico perto do monjolo, e ele estava descansando ali, deitado prximo ao local 
do meu destino. Parei, obedecendo a uma prudente distncia, e pude observ-lo com devotada calma. O chapu sobre o rosto, as mos cruzadas sobre o abdome, as pernas 
entregues ao descanso e o ressonar tranquilo, que pude perceber pelo movimento do peito. O homem estava ali. O peo do olhar desconfortvel que povoava meus pensamentos 
desde a infncia. O homem que eu admirava desde o tempo em que ainda me ocupava com bonecas e guisados no quintal. O homem a quem eu amava, mesmo sem saber o que 
era o amor. Por sua coragem, por sua bravura, por sua beleza. O homem a quem eu desejava entregar meu corpo, minha inocncia. O homem a quem eu reservava o colo, 
desejoso de que nele ele depositasse sua descendncia. 
  Gostava de imaginar o lugar onde ele dormia. Olhava para o galpo que ficava prximo ao estbulo e dominava o desejo de me aproximar. Papai insistia em dizer que 
aquele territrio era proibido para suas mulheres. Tereza; a menos temerosa, tentou infringir a regra duas vezes. Papai nunca soube.A ameaa de punio partiu de 
mame: "Eu corto dois dedos do seu p, menina!". Tereza avaliou que o prazer no valeria a mutilao. 
  Eu imaginava. Tecia nos meus sonhos colchas de retalhos e toalhas de croch. Retirava os lenis, colocava-os no molho, quarava-os, perfumava os colches. Abria 
as janelas para que o ar fosse renovado; colocava cortinas que conferissem um ar familiar ao local e preparava mesa farta para o caf da tarde. A vida na cozinha, 
a labuta interminvel a que minha condio de mulher me obrigava, os desejos da carne saciados em chegadas inesperadas - sol alto indicando trs horas da tarde, 
quando o gado carece de gua no cacho de madeira, antes de ser recolocado no curral. Eu, no borralho da felicidade absoluta, sem os luxos de castidade infrtil, 
pobre, abnegada, deserdada pela fria inconsequente de meu pai, mas amarrada nas foras daqueles braos proibidos, feliz e amada. Tudo me fazendo concluir que herana 
melhor no h. 
  A via das sombras  o prmio reservado aos que no gritam ao mundo os desejos que tm. Guardei mais do que deveria. Vida preservada  vida no vivida. Noites e 
noites de desejo acorrentado, inconfessado. Ningum soube; ningum nunca imaginou. S eu acreditava no que sentia. A solido superlativa o desejo. No confessado, 
ele parece dominar todos os poros do corpo. 
  E assim foi. Quando dezembro chegou com suas chuvas midas de adormecer esperanas e amadurecer jabuticabas, meu pai anunciou o casamento do capataz com Maria 
Rosa, filha mais velha do caseiro Jos Policarpo. 
  Moa simples e afeita aos trabalhos pesados, certamente teve tempo e oportunidade de viver os cortejos do moo sem as mesmas dificuldades que eu enfrentava. Uma 
trouxa de roupa lavada na nascente do crrego, um encontro na volta, uma roupa de cama devolvida., um roar de braos na hora de pegar o balde de leite, e o amor 
encontrou ocasio. 
  Ela foi favorecida pela proximidade. Enquanto ela transitava pelos mesmos caminhos do rapaz, eu vivia a condio de mulher acorrentada na torre. 
  O casamento foi celebrado na capela da fazenda. No fui. Meu pai ofereceu um boi para uma tarde de festejos. Eu no quis. No havia o que festejar. A casinha recm-construda 
ficava no alto do morro. Da janela do meu quarto eu a avistava. Quando rompeu a primeira manh depois do casamento, quando a luz comeou a incidir sobre o lugarejo 
e a chamin da pequena casa soltou uma fumacinha tmida, insinuando felicidade com cheiro de caf, senti vontade de me atirar de minha janela com o intuito de interromper 
a minha vida. 
  Imaginei. A casa simples, o fogo de lenha aceso, a broa de amendoim saindo do forno, o po de queijo recm-assado, o leite fervido, o silncio dos mveis e o 
pequeno rdio tocando modas de tristeza. Imaginei. O capataz de banho tomado, ainda sem camisa, a toalha enrolada na cintura, a porta do banheiro entreaberta e o 
vo me permitindo ver o barbear lento e ordenado. As costas largas, os contornos de homem feito, pronto para um socorro no meio da madrugada. Eu, mulher recm- acordada, 
ainda doda de tanto abrao e pronta para amparar meu homem nos primeiros cuidados do dia. A lida  minha espera. A roupa suja, a casa por ser limpa, as galinhas 
para tratar, os ovos para recolher. Caar os ninhos das poedeiras, varrer o terreiro, amarrar vassouras e depois fazer um almoo para dois. 
  De sbito, a imagem desfez-se na fumaa da chamin. Olhei meu quarto e percebi o despropsito. A cama alta, os lenis rendados, alvos, macios. A penteadeira repleta 
de colnias, cremes, enfeites para os cabelos. Nenhum fogo de lenha aceso, nenhuma chaleira fumegando, potica, recordando-me os contos de gente simples e feliz. 
  Por um instante quis pr fogo na casa. Comearia o fogo no meu corpo, mas achei que seria sofrido demais. Fechei a janela. Escureci o quarto. Quis dormir de novo. 
Em vo. 
  A fumaa j no era fator exterior. A chamin agora estava dentro de mim. Uma fumaa fina, constante, impertinente. 
  Aos poucos, a alma sufocada, intoxicada da felicidade alheia, quis render-se ao esquecimento. Felicidade alheia  dio prprio. Fiquei sem ar. Durou um minuto. 
Quis apagar o fogo do fogo imaginado. Um balde de gua na lenha acesa e avermelhada. A fumaa aumentou. 
  Que desgraa! Mas no h como apagar o fogo sem a intensidade da fumaa final. Que seja assim, ento. 
  J somei vinte e seis anos desde aquela manh em que intoxiquei minha alma. Ainda vejo a chamin sinalizando que a vida amanheceu na casa do capataz. Meus lenis 
ainda so alvos. Minha alma tambm. 

  A justiceira
  Indecente. S porque cambaleei na escada da cozinha a infeliz destampou a rir. E ainda por cima fez um gesto de mulher vadia pra despertar o riso de Rosilene, 
que estava do outro lado, na porta da sala. 
  Preguei meus olhos na cara dela e a desafiei sem dizer uma s palavra. Mulher dessa laia no merece discurso. Com uma bisca dessas no gasto nem uma vrgula. Ordinria. 
Acha que oxigenar os cabelos  bancar a moderna. 
  Cafona. No tem onde cair morta e fica se equilibrando naquele sapato de salto, nico, de verniz e com aspecto de liquidao, tpico de mulher que se diz emancipada. 
Nojenta. Come couve e arrota caviar. Fosse eu a parteira que a trouxe ao mundo e teria enforcado a cria antes do primeiro choro. 
  Quem sabe assim essa infeliz no teria acabado com o casamento da Joelma, filha mais nova do compadre Arlindo. 
  Bancou a amiga, comeu no mesmo prato, criou intimidade. Ora uma xcara de acar emprestada pra terminar de coar um caf, ora uma medida de arroz para completar 
o almoo, e depois o pulo de naja. Quando Joelma chegou, seus olhos no podiam acreditar no que viam. A indecente estava deitada na sua cama, nos lenis que engomara, 
e o pior: com o seu marido. 
  A infeliz ainda quis explicar, gritando, seminua, no porto de entrada e enrolada no lenol, o mesmo que Joelma engomara: - No  nada disso que voc est pensando, 
Joelma! Venha aqui, amiga! Explicar-me-ei! 
  Que nojo. Por que usar aquela mesclise? Inoportuna demais para um momento to delicado. Soava como afronta  ignorncia de Joelma, que por motivos de pobreza 
s havia cursado o primrio. Portugus correto numa boca que nunca esbarrou na retido de carter. 
  Ah, tenha pacincia! Explicar o qu? A cena j dizia por si s. Descarada. Fosse eu a mulher trada e moeria uma vara nas costas da desavergonhada. 
  Joelma, a que engomava os lenis, nunca mais foi a mesma, pobrezinha! Continua casada com o Gerson Aroeira, mas a tristeza nunca mais se despregou de sua cara. 
 quase uma cera a lhe cobrir as feies. 
  A cada ano que passa ela parece envelhecer dez anos. Mas no  por menos. Uma vergonha daquele calibre  capaz de destruir qualquer cristo. 
  A rua estava repleta de pessoas. Havia um agravante: Italvina Quirino estava presente. Ela vale por trinta pessoas. A lngua no cabe na boca. Estava passando 
por acaso no momento da tragdia e assistiu ao espetculo da primeira fila. Mais tarde, relatou-o com riqueza de detalhes aos desinformados. 
  Eleonora Mendona tambm presenciou a cena. Sua pessoa contabiliza o valor de vinte. Lngua ferina. No   toa que tem o apelido de Rdio Municipal. D notcia 
de tudo e ainda faz intervalos de propaganda. 
  Joelma no teve fora de dizer palavra. Ficou amuada no canto do muro enquanto as pernas tremiam na tentativa de reencontrar o equilbrio. Edilva Gonala trouxe 
um ch de cidreira, mas Joelma no destrancava os dentes. 
  Travada, no ia nem pra frente nem pra trs. - Crise de nervos - diagnosticou Jurema do Altevino, espremida num vestido vermelho, prestes a explodir com a imensa 
presso das carnes volumosas. 
  Dura feito uma rocha,Joelma precisou ser removida pelos oito irmos. Parecia um chumbo de to pesada. Aos cinquenta e seis quilos do corpo somava-se o imenso peso 
da ingratido, do rancor, do dio e da humilhao. 
  Enquanto isso, a ordinria parecia leve feito uma pluma. Amparada pelo safado do Geraldo Figueira, fingia que chorava. De vez em quando simulava alguns soluos. 
Estendia os braos para o cu e clamava por So Jorge. Desaforada. Clamar aos cus? Isso  blasfmia que no posso admitir. 
  - No serve nem pra fazer sabo - comentou Rosa Valdomiro do Amor Divino, que, a propsito, em nada faz jus ao nome que tem. Amarga feito fel, Rosa nunca ofereceu 
um sorriso a quem quer que seja. 
  Papai  quem tinha razo quando dizia: " de pequenino que se torce o pepino!". Nunca entendi muito bem o que ele queria dizer com isso, mas sei que essa frase 
era usada todas as vezes que ele precisava nos aplicar um corretivo. Papai era muito enrgico conosco. Pivamos fino com ele. Ainda bem que era assim. Fosse ele 
um molenga e todas ns seramos mulheres de vida fcil, iguaizinhas a essa infeliz. 
  Dizem que essa foi a primeira profisso que o mundo conheceu. Deus que me perdoe se eu estiver sendo injusta, mas, se essa foi a primeira profisso, quem acertava 
os salrios era o diabo. 
  Razes para pensar assim  que no me faltam. Desde que me entendo por gente, vejo famlias inteiras desmoronarem pelo poder de destruio que essas vboras possuem. 
  Ningum confirma o fato, mas comenta-se a boca mida que vov Germano teve um envolvimento com uma messalina durante toda a sua vida. 
  Vov Anita nunca tocou no assunto, mas nos seus ltimos anos de vida, quando a esclerose j havia lhe roubado a lucidez, vez ou outra esbravejava uma mesma frase, 
recheada de dio e ressentimento. Colocando ranhuras de dio na voz, ela dizia: "Lady Cludia, sua vaca, vai roubar o marido de outra, sua sem-vergonha!". 
  Achvamos estranha aquela atitude de vov. Ela, que nunca deixara escapar dos lbios uma palavra grosseira, de repente gritava em alto e bom som uma frase despudorada 
daquelas! Aquela boca que recebia a Eucaristia diariamente das mos do finado padre Diornlio, boca afeita a jaculatrias e novenas cheias de devoo, agora gritava 
palavras toscas, tendo como miolo uma tal Lady Cludia. 
  "Quem ser essa mulher, meu Deus, perguntava-me no silncio de minha curiosidade no crist. A frase me fazia recordar os comentrios que casualmente ouvamos. 
Seria Lady Cludia o nome da messalina? No ousvamos perguntar  mame. Achvamos estranho que vov repetisse a frase sempre do mesmo jeito. Repetia seguindo a 
mesma ordem de palavras, como se tivesse ensaiado aquele discurso durante anos e anos. 
  Vai ver que foi a frase que a vida inteira quis gritar do trio da matriz, em tarde de Sexta-Feira da Paixo, quando a praa estava entupida de gente desejosa 
de preces, mas que a reputao nunca lhe permitiu.Vai ver essa  a frase engasgada, feito espinha de peixe na goela, e que agora a esclerose resolveu expulsar. 
  Vov era to recatada, to dona de si. Era quase uma facada nas costas v-Ia carecendo de ajuda para as necessidades no urinol. Pobrezinha! Fraldas geritricas, 
cueiros ao redor da cintura, papas substituindo os alimentos slidos; a boca sem dentes, os dentes no copo sobre o criado-mudo, criando-nos a jocosa impresso de 
.que o copo sorria pra gente e que a qualquer momento nos diria alguma coisa! Ai, meu Deus, que tristeza! 
  Concluo: nve1hecer humilha! Ela, que sempre se portou como dama! postura ereta, corpo esguio, perfumado de essncia doce. Olhos vivos, altivos, cheios de disposio 
para enxergar o mundo e suas avalanches de dificuldades, agora ali, curvada feito um anzol, cheirando a urina misturada com essncia de eucalipto. Coisa mais triste, 
meu Deus! 
  Ser que a ordinria vai ficar assim tambm? Espero que sim. Tomara que fique acamada; que perca a graa, os cabelos oxigenados, e que no se equilibre mais no 
sapato de salto, o nico, o liquidado em banca do varejo dos calados, o de verniz. 
  Quero v-la humilhada no fundo de uma cama, vestidinha de pijama de flanela manchado de sopa derramada. Quero v-Ia no asilo, recebendo biscoitos de polvilho doados 
por Joelma. A boca murcha, murchssima, como se fosse um maracuj ressecado, exposto ao sol em tardes escaldantes de janeiro. 
  Mas de repente a conscincia me recorda. Ela  muito mais nova do que eu.  bem provvel que essa indecente ainda participe do meu sepultamento. E, do jeito que 
 metida, ainda vai se botar  frente do cortejo, vestindo sua minissaia desbotada para levar uma coroa de flores feita de cipreste e cravos amarelos. 
  Deus que me defenda desse desaforo. Quero  morrer rouca de tanto gritar umas verdades para essa leviana. No quero esperar a coragem da esclerose para desembuchar 
tudo o que tenho para jogar na cara dela. Nojenta. Soubesse ela o pavor que tenho s de ouvir o som de sua voz e nunca mais abriria a boca. 
  J contei tudo isso em confisso ao padre Diolindo, mas ele me disse que no h arrependimento na minha fala. Rezo e peo a Deus que alivie meu corao dessa mgoa, 
mas  uma coisa sem jeito.  s ver a cara da ordinria e o dio toma conta de mim. 
  Ela nunca me fez nada.  gratuita a minha raiva. Mas eu a entrego em prestaes. O que recebi de graa devolvo em vinte e quatro prestaes com acrscimo. Meu 
dio est aplicado e rende juros. Cresce de tamanho, multiplica. 
  Nele todos os dios esto amarrados. Igual a trouxa de roupa suja. dios que desconheo. dios que repousam nos coraes annimos e trados que esto esparramados 
pelo mundo afora. Sou quase uma Joana d' Arc. 
  Tivesse eu destreza para montar cavalos sairia fazendo justia no mundo com as prprias mos. No fio de minha espada, eu passaria a fidelidade conjugal a limpo. 
Cortaria os pescoos contornados de colares e perfuraria os peitos cheios de decotes. 
  O exrcito das ordinrias possui armas poderosas. Batons, lingeries, saltos, cintas-ligas, perucas, potes e potes de cremes. Enquanto ns, mulheres que comandam 
a vida na fragilidade do fogo, estamos munidas de teros, novenas, panelas, panos de prato, temperos e iguarias decentes.  por isso que minha espada faria a diferena. 
  Seria canonizada por essa bravura. Santa Maria Madalena dividiria comigo a glria dos altares. Ela, por ter vencido a fraqueza da carne. Eu, por ter combatido 
as carnes que nos enfraquecem. 

  Da vida alheia
  O amor me trava debaixo da lngua. Manga verde me travando os dentes  o seu gosto. Angu de caroo, calombo no pescoo, quase um desgosto. O amor  tudo o que 
reconheo como incmodo. 
  Esse jeito atrevido que o Z Arlindo tem de me chamar de Amlia quase me mata. Escuto a sua fala mansa perto do alpendre da sala e j preparo a alma para a ladainha 
do amor concreto. Beijo na boca, arrepio nas axilas, frio nos joelhos. 
  No tenho trava na lngua. Tenho s a trava do amor, e essa no tem destrava. Ruminei noites e noites a desfeita do Venncio Germano. Hora pior para aquela prosa 
no poderia existir. Marisa Isaura  porta da sala; Rosilda Pimentel comendo um pastel de queijo prxima da cristaleira, e eu, quase pronta para morrer com seu pedido 
de casamento, e de repente, quando no imaginvamos, ele me solta aquele comentrio infeliz. 
  Disse que eu era imatura demais para a vida matrimonial. O amargo r do amor veio  boca. Sbito desejo de esfaque-lo, cort-lo em partes como quem corta um frango 
e despachar os cortes do corpo para lugares diferentes. Uma perna para a Guatemala, um brao para a Bsnia e o fgado para a Nicargua. 
  Meu Deus, quanta maldade aquele amor despertou em mim! Razes no me faltaram. Eu esperando um pedido de casamento e de repente ele resolve me acusar de imatura 
e despreparada! Eu no merecia aquela desfeita. No bastava dizer o absurdo de eu ser imatura? Tinha que acrescentar o complemento "demais"? 
  Eu quis voltar a cultivar gernios. Achei melhor acabar com as margaridas amarelas. So aborrecidas demais. Cuidados e mais cuidados, e nada das ordinrias florescerem. 
Mandei o Julio arrancar tudo, e aos gritos, para que elas percebessem minha fria. Gernios so mais gratuitos. Uma aguada de manh e a florada j est garantida. 
  Conclu que os homens so semelhantes s margaridas ou aos gernios. Venncio  uma margarida amarela, mas desbotada. Reguei, reguei, cuidei, adubei, e nada daquele 
ingrato me pedir em casamento. Arranquei com raiz e tudo. Que morra seco e sem gua, e que no sirva nem pra enfeitar defunto. J o Z Arlindo  gernio que vim 
a conhecer no final da feira.  quase um resto, mas no importa. Esse vaso de flor eu no deixo quebrar. 
  Areei as panelas da Iolanda Diolinda e nunca vi uma criatura to feliz por to pouco. Ela vivia dizendo que o seu alumnio nunca brilhou na prateleira. Eu insistia 
que era falta de areio. Ela ria e colocava a culpa no sabo. Uma tarde inteira foi o suficiente para iluminar de brilho prateado a sua cozinha escura de fumaa. 
Acho que ganhei um pedao do cu naquele dia. 
  Panelas areadas espantam o diabo. Essa teologia  minha. Os cardeais no sabem disso porque no frequentam cozinhas nem tampouco areiam panelas. Eu sempre achei 
que padre corre o risco de no saber muita coisa sobre Deus. Ou, se sabem, desaprenderem com o tempo. Costumam ficar muito tericos, e Deus no  teoria. Deus  
prtico demais. 
  Os telogos quiseram tranc-lo nos livros, mas no deram conta. Coitados. Eu tenho  d. Minha me foi a maior teloga que o mundo j teve. Abriu as portas do 
missal do padre Isoldo e destrancou as amarras que os rubricistas colocaram em Deus. 
  Minha me rezava na prtica. Acudia os pobres, curava as feridas da leprosa Laura e nunca deixou secar os seios com o intuito de alimentar os filhos das escravas 
da fazenda de meu finado av. Fazia tudo em segredo. Tinha medo de despertar a ira do marido, que era avesso  caridade. 
  O alarido dos meninos da vizinhana me acalma. Zulmira Alencar vive dizendo que perdeu o direito do sono da tarde depois que a rua ficou infestada de menino. 
  Eu fico pensando que mais vale a falta de sossego que aquele silncio mrbido de antes. Zulmira j est pronta pra morrer. Eu no. Eu ainda quero amassar muito 
biscoito de polvilho para encher as latas dessa pobreza que me rodeia. 
  Acho um desaforo esse jeito arrogante com que a Zlia fala do meu medo de escuro. Por no sentir na pele o que sinto, vive reme dando o meu jeito de desabafar 
o medo.  s ter oportunidade e l est ela entortando a boca e afinando a voz para ironicamente repetir com veemncia: "No apaga a luz que eu t com medo, t com 
medo!". Engraadinha! Quem  que no tem medo nessa vida? Alm de ser infantil, sua atitude  ridcula. No tem o menor talento para o teatro e fica fazendo pose 
s para me envergonhar diante dos outros. 
  s vezes acho que Zlia me detesta do mesmo jeito que Caim detestava o seu irmo Abel. Desde a infncia eu percebia resqucios de maldade em seus gestos. No sei 
por qu; afinal, sempre a tratei muito bem e no tenho nenhuma recordao de t-la ofendido. 
  Eurpedes no desiste de esperar por Hlio Roncastro. Pobrezinha. Parece que o corao ficou estacionado naquela tarde chuvosa de dezembro. O tempo passou, mas 
ela ainda continua presa na memria dos trilhos. 
   quase um retrato na minha memria. O trem partindo enquanto eu segurava a mo trmula de Eurpedes. 
  O choro quase convulsivo soava no mesmo tom do apito. O movimento do trem e o aumento do rangido das ferragens encorajavam os gritos. Hlio Roncastro acenou com 
o chapu e nunca mais voltou. Ningum sabe ao certo o que aconteceu com o homem. Alberto Gutierrez afirma de ps juntos que viu o corpo ser sepultado no Rio de Janeiro. 
No fosse seu interesse por Eurpedes, talvez dssemos crdito a seu relato. Disputou o corao da moa com o amigo desde o incio da juventude. Perdeu no primeiro 
tempo. Eurpedes deve ter descoberto que Alberto no passava de um mao de margaridinhas amarelas. 
  Com apenas dois meses de namoro, Eurpedes jurou amor eterno a Hlio Roncastro diante do altar de Nossa Senhora das Vitrias, sob a bno sacramental do padre 
Rivalino. Eurpedes encontrou o seu gernio. 
  Eustquio Moreira, o maior mentiroso que a face da Terra j viu nascer, afirma que Roncastro constituiu nova famlia e  fazendeiro abonado no interior do Par. 
No fosse a distncia e o custo da viagem, iramos todos, em comitiva,  busca do desaparecido, s para no encontr-lo e assim desmoralizar Eustquio. 
  Sou m. Reconheo isso nos meus desejos. No posso negar que sempre tive vontade de ter fusca velho s pra deixar bater em motorista imprudente. Sonhos mesquinhos. 
Eu os tenho a toda hora. 
  Sobre o desaparecimento de Roncastro, prefiro ficar calada. Minha sugesto no alteraria em nada a dor de Eurpedes. O que posso, fao. Consolo a pobrezinha no 
que posso. Uma fornada de broa de canjica, um pacote de farinha de amendoim, uma lata de doce de leite e mais nada. No digo nem uma palavra que possa se referir 
ao desaparecimento do ordinrio. Fosse eu o papa, e Eurpedes j estaria canonizada, em vida. Eu a declararia padroeira dos ferrovirios. 
  Mas de santo eu no entendo muito. S um palpite tenho pra dar. A teologia comea debaixo do brao do povo. A antessala da teologia  a vida simples que se dispe 
a ser morada de Deus. O resto no fao questo de conhecer.  cansativo demais. Prefiro a prtica que o discurso sugere. O rosto suado de Juvncio  uma pregao 
convincente. Passa o dia todo dando um adjutrio para erguer a casa do pobre do Man Capenga e mesmo assim no perde o sorriso. Juvncio nunca ser capaz de conhecer 
e compreender as cinco vias que Toms de Aquino sugeriu para provar a existncia de Deus. No precisa disso. O sorriso to cheio de cries  a via segura de que 
Deus repousa ali, naquele homem simples de fala matuta e cheia de graa. 
  Prometi a Dorinha Lasmar que a ajudaria a montar o prespio, mas no vou. Fiquei com uma antipatia danada do jeito como ela me disse que eu estava sumida da igreja. 
Peguei implicncia dela. Ela que cuide do prespio sozinha. 

  Sumida da igreja! Tenha pacincia! Essa histria de ser crist vinte e quatro horas por dia  demais pra mim. Converso tem hora. Eu espero a minha. Mas preciso 
confessar que no creio que Deus chegar  minha vida pela porta da frente. Ele vir pela porta da cozinha. 
  Quem gosta de porta principal  o diabo. 
  Do nome infeliz  infelicidade do nome
  A menina enfiava o dedo no nariz como se estivesse procurando um objeto perdido. Parecia imersa numa forma de esquecimento do mundo, como se nenhum olhar pudesse 
observar sua tentativa de arrancar os males da existncia alojados em suas narinas. 
  A crueldade do mundo  uma poeira que respiramos sem descanso. Ontem mesmo a pequena Beatriz foi vtima de sua professora desalmada. S porque a pobre menina no 
obteve um bom resultado no torneio de fatos, a tal de dona Ftima obrigou-a, com requinte de crueldade, a permanecer imvel atrs da porta por torturantes setenta 
e cinco minutos. 
  A quantidade de minutos no  por acaso. Foi para acentuar o resultado negativo de Beatriz no torneio. No sei qual  o tanto que vezes tanto soma setenta e cinco, 
mas que essa professora queimar no quinto dos infernos disso no tenho dvida. Nessa matemtica eu no erro. 
  A menina enfiou o dedo no nariz at se consolar com urna pequena quantidade de muco, coisa pouca para quem revirou tanto aquele pequeno espao. Enrolou carinhosamente 
aquela bolinha e, depois de contempl-la, grudou-a cuidadosamente debaixo da cadeira em que esperava sentada pela chamada da secretria, anunciando que o douto Romualdo 
estava pronto para lhe examinar o pequeno corpo. 
  Eu a observava sem ser notada. Contemplava aquela pequena criatura e seu entretenimento to reprovvel. Fiquei pensando em como era triste ser criana. Acho sofrido 
ser pequeno. Ter que frequentar a escola; suportar tardes inteiras acorrentada na dureza de uma cadeira que nos antecipa os desconfortos do inferno; ouvir a voz 
de professoras cujo nome geralmente termina com ete: Bernadete, Elizete, Gorete, Deusdete. Ai, meu Pai. Deu que me livre de voltar a frequentar escola! 
  Pudesse eu fazer uma reforminha no mundo e criaria todo mundo com o diploma na mo.  triste demais ver aquelas criaturinhas mirradas e suas mochilas to cheias 
de obrigaes desagradveis. 
  Crescer  to dodo. Tenho lembranas que levarei para o tmulo. Perto da minha casa morava uma famlia muito humilde que tinha um menino chamado Ricardinho. Ningum 
entendia, mas Ricardinho no crescia nem meio centmetro por ano. Tinha uma cara de homem velho, mas o corpo era de menino de seis anos. Ricardinho era to feio 
que, a qualquer hora do dia ou da noite que a gente olhasse para aquela criatura, tinha a impresso de que ele ardia em febre. 
  Ricardinho era umaa contradio. Tinha uma cara enrugada, uma cabea grande e um corpo miudinho, miudinho. Manoel Vieira, s para fazer graa e ver sorrir Heliodora, 
chamava o pobrezinho de "Cabea de Mula". Eu sentia vontade de destampar a rir sempre que ouvia o apelido, mas tinha um medo danado de Ricardinho. Temia que ele 
viesse assombrar minha casa quando chegasse a noite. 
  Camilinha do Joaquim Rodarte tinha pavor s de ouvir falar o nome da Criatura. Certa vez recusou-se a entrar na igreja em noite em que coroaria Nossa Senhora das 
Graas s porque soube que Ricardinho estava sentado na segunda fileira de bancos com a me, Rosalva do Modesto. Ricardinho era filho de Modesto, mas ningum sabia 
quem era o tal do Modesto, porque, desde que mudou para nossa rua, Rosalva j veio sem o Modesto. Mas seu nome no mudou. Rosalva  do Modesto, mesmo a gente no 
sabendo onde est o Modesto. 
  No gosto desse negcio de falar o nome da mulher sempre acoplado ao do marido. Parece que a mulher  uma coisa pertencente, propriedade adquirida, passada em 
escritura. Na minha terra  tudo assim. Florpedes do compadre Hlio. Quem  esse tal compadre Hlio? E, se  compadre,  compadre de quem? Ningum sabe. S sabemos 
quem  Florpedes. 
  Outro caso. Marilena do Maurcio Lilico. Dizem que o tal do Lilico j morreu h mais de trinta anos, mas a Marilena no sabe dizer o nome dela sem falar do complemento 
j morto. Jeito esquisito de preservar a viuvez? No sei. 
  O mais esquisito  o caso de Maria Olvia do Murilinho Verdureiro. Murilinho j morreu, a verdura j murchou, Maria Olvia j se casou com Heliofonso Pudim de 
Cachaa, e mesmo assim ela continua sendo chamada de Maria Olvia do Murilinho Verdureiro. Ainda bem. J imaginou trocar a verdura pelo pudim de cachaa? 
  Coisa triste  nome feio. Outro dia eu estava na casa de Romilda Solteira e ela veio me apresentar um primo que viera da roa para um tratamento de sade com o 
doutor Clemncio Eustquio Nogueira. 
  Ele apontou a cara  porta e logo se apresentou, estendendo a mo: - Muito prazer, sou o Gurgemiro Severino da Costa. - Fiquei estarrecida como se tivesse recebido 
a notcia de uma tragdia. "Nome mais triste, meu Deus", pensei sem dizer. "Que mal fez essa criatura para merecer esse nome!", indaguei em silncio, indignada dentro 
de mim. Antes fosse Jos. O conformismo ao ordinrio seria melhor, menos dodo. 
  Nome  quase uma doena que pode fazer a pessoa sofrer a vida inteira. O duro  que para ela no h tratamentos, cirurgias, nem medicamentos. O jeito  sofrer. 
 uma agonia que se repete cada vez que algum o solicita. Abrir credirio, informar ao telefone, marcar consulta. Tudo di, mas nada di tanto quanto o anncio 
pblico em sala de espera de exame laboratorial. A enfermeira mal-humorada, com sua pranchetinha cheia de adesivos de propaganda de remdio, chega e anuncia: - Wandergleiston 
Washington da Silva. O pobrezinho se levanta apressado para evitar o perigo de uma segunda chamada. 
  E a Maria dos Prazeres? Nunca soube o que  felicidade na vida. Prazeres s no nome, e ainda pra fazer sofrer. Certa vez, conheci Meridiana. Depois de me contar 
qual era o seu nome, apressou-se em me dizer: - Pode rir! - Fazia sempre da mesma forma. Dizia o nome e j autorizava o riso. Ficou conhecida como "Meridiana Pode 
Rir". 
   H nomes que so fruto de modismos e feitos para um nico tempo da vida. H alguns que no combinam com a velhice, mas somente com a infncia. J imaginou uma 
velha chamada Tatiana? Parece-me estranho. Da mesma forma como  estranho um menino recm-nascido receber o nome de Joaquim Olivrio. 
  Penso que todo mundo deveria ter o direito de mudar de nome de acordo com as etapas da existncia. A menina Tatiana poderia se tornar Juliana na juventude, Maria 
Clara na meia-idade e Conceio no final da vida. Conceio  um nome que combina com velhice, pedra no rim, repouso, mas no combina com fraldas, beros e chupetas. 
  O bom mesmo  possuir um nome que sobreviva a todas as fases da vida. Laura, por exemplo. Laura criana, Laura moa e Laura velhinha. Laura  um nome que parece 
abarcar a vida inteira. No  resumo de um tempo. A Laurinha menina, vestidinha de saias rodadas, sapatos de verniz e lao na cabea, ser no futuro a respeitosa 
dona Laura, professora aposentada que usar culos e ter a pele vincada pelo tempo. 
  J imaginou o dilema que Shirley Patrcia vai ter quando chegar para marcar seu exame de rotina do alto de seus noventa anos de idade? E o Mycon Patrick? 
  H nomes que se transformaram em verdadeiras condenaes ao longo do tempo. Isso porque caram no gosto de uma classe que prefiro no comentar para no parecer 
preconceituosa, Tnia Rogria, Lucrcia Fernanda, Loreta Mrcia, por exemplo. 
  Um recurso interessante para quem tem nome feio  o apelido, a alcunha. Apelido  o apelido da alcunha. O sinnimo da expresso.  um bom jeito de melhorar um 
pouquinho a situao do sofredor. 
  Ambrosina vira Zina. O apelido tambm  feio, mas ameniza bem. Fica carinhoso, e o carinho resgata a pessoa da feiura do nome. A Jurnia vira Nnia, Tambm  triste, 
eu sei, mas fazer o qu? Cada um melhora como pode, meu Deus! 
  O contrrio tambm  verdadeiro. H nomes bonitos que esto escondidos em apelidos terrveis. O Lucas quase ningum conhece pelo nome, mas s pelo apelido: Prego.Coisa 
mais triste, gente! Conheci tambm o Csar que se tornou Budega. Mas o pior de todos  Joo Paulo, que  conhecido como Caixa-d'gua. Pode uma coisa dessas? 
  Nome deveria dar cadeia. A quem o escolhe,  claro! O recm-nascido est l, quietinho, deitadinho no bero, tomando leite e fazendo coc, enquanto a famlia toda 
d palpite errado no nome do pobrezinho. 
   O pai, que gosta muito de futebol, quer que ele se chame Maradona. A me, que  adepta do cinema internacional, quer que o nome seja Brad Pyterson, e ainda insiste 
em que tem que ser com y.  engraado, mas, quanto mais pobre a pessoa, maior  o nmero de L e Y nos nomes.A av da criana sugere que o nome seja Geraldo com o 
intuito de homenagear o santo a quem ela diz ter consagrado o neto. 
  Uma tia esotrica quer que seja Astrolbio. Defende sua escolha dizendo que  um nome forte e de boas energias. O irmozinho? do recm-nascido, quando consultado, 
sugere que seja Yakult. Deve ter sido o primeiro nome que veio  sua cabea. 
  Diante de tantas possibilidades, a nica coisa que podemos prever  que essa criana tem grandes possibilidades de sofrer terrivelmente pelo nome que receber. 
Engrossar a fila dos que lamentam o nome que lhes foi dado. 
  Outra desgraa muito comum no universo dos nomes  a juno que se faz entre o nome dos pais. Exemplo: Cleide casou-se com Edvaldo. Dessa unio nasceram para o 
mundo Cleidivan- Edcleide, Cleidovaldo, Cleidivalda e Cleidivnia.A regra  simples. funciona igual s operaes matemticas. Som slabas, subtrai letras e resulta 
tragdia. 
  A pobre da Cleidivalda chora dia e noite por causa do nome que ,em. Eu mesma j lhe ofereci consolo, dizendo-lhe que ela precisa se conformar. Afinal, poderia 
ter sido bem pior se a me dela tivesse se casado com um antigo namorado, o Tibrcio. J imaginou? Em vez de Cleidivalda, Cleidibrcia. Seria o fim. 
  Comadre Ana evitou uma desgraa dessas com o ltimo filho. A juno do nome do pai, Dorinato, com o da me, Ana, j estava decidida caso viesse ao mundo uma menina. 
De Dorinato e Ana resultaria Doriana. Tenho comigo que o apelido seria "Delcia Cremosa". J imaginou?! Duas desgraas numa pessoa s. A sorte  que nasceu menino. 
Foi salvo pelo gongo! 
  Pg. 163
 Amor inacabado
  Aquele infeliz sempre me olhou com olhares "confundentes". Jamais pude saber se me queria ou no. Nunca utilizou a clareza como regra, como se a vida tivesse que 
passar obrigatoriamente pelo filtro da dvida. 
  De vez em quando ele chegava. De vez em quando ele partia. Intermitentes processos de deslocamento que deixavam meu corao em sobressaltos de expectativa. 
  Tanto foi e tanto veio que um dia resolveu ficar. Varou as estradas do meu tempo e ocupou os territrios de minhas preferncias. Quis comer no meu prato, dormir 
na minha cama e, quando a vida j era estreita de  esperanas, pediu-me em casamento. E eu, fraca de tanto amar, aceitei. 
  Ainda me recordo daquele dia. O sol era suave e no havia desesperos de calor. A igreja estava impecvel de tantas flores. Os amigos presentes me recordavam que 
o amor conjugal fica ainda mais vistoso quando temos fraternidade que nos prestigie. Sem muitas delongas, ele 
colocou a aliana no meu dedo e jurou com frase feita que me levaria com ele at o dia em que a morte nos separasse.
  Mas no foi assim. Dois meses depois de selado o juramento, ele retomou o olhar confundente. Descobri naquela hora o tormento do amor inacabado.  sempre assim? 
 destino de mulher sofrer as consequncias das amovibilidades dos homens? No sei dizer. 
   Justina continua sofrida. Chora dia e noite as dores do mundo. No est podendo nem sair de casa. O doutor Marciano no conseguiu diagnosticar o caso. A pobre 
coitada passou por inmeros exames e nada acusou anomalia. Mas a tristeza est l, estampada na cara e no peito. A Ordalina disse que j viu um caso desses no tempo 
em que morou em Guaxup. Disse que a mulher no escapou. Chorou, chorou at morrer seca. 
   Tenho pena de Justina. Fao esforo pra ver se ela se distrai um pouco, mas de nada adianta. Outro dia, eu a levei ao circo comigo, mas antes no tivesse levado. 
Ficou apreensiva demais. Tinha medo de que o palhao no nos fizesse rir e, diante da falta de graa, casse na desgraa. Eu falei: - Deixa de bobagem, Justina. 
Est todo mundo gostando! - De nada valeu a minha fala. 
  Ficou tensa na hora do trapzio. Tremia igual a uma vara verde, temerosa de que os trapezistas se desequilibrassem e despencassem, humilhados. Tentei lhe oferecer 
um confeito, um algodo-doce, mas nem para negar o oferecimento ela usou as palavras. Balanou a cabea e ficou por isso mesmo. 
  Eu lhe disse que no pode ser assim! Nem resposta ela me deu, outra vez. O tremor nos lbios era constante. O circo ali, cheio de risos e atraes, e a pobre da 
mulher se comportava como se estivesse socorrendo feridos de guerra. 
  Justina  muito diferente de mim. Gosto de observar o jeito como ela cruza as pernas.  como se estivesse defendendo um territrio santo. Puxa a saia, cobre os 
joelhos com as mos, confere, atenta. Deve ter os seus traumas. Eu sou natural. Cruzo as pernas como se estivesse dando uma ordem de comando ao mundo. Meu poder 
eu reconheo e exero. Minhas fraquezas tambm. So muitas, mas delas no me queixo. 
  Aprendi com minha me que a pobreza de um tecido pode ser socorrida com a arte dos bordados. O pano de saco, depois de alvejado, recebia as linhas coloridas que 
nossas agulhas conduziam. O bordado era um socorro, uma forma de redeno, um jeito de distrair a pobreza. 
   O mesmo acontece comigo. Quando o desprezo de Loureno ameaa me transformar em molambo, logo reajo. Quando vejo que minha alma est ameaada por seu amor confundente, 
arregao as mangas e dou um jeito de recorrer aos movimentos criativos das agulhas e linhas. 
  So linhas que no vejo; so agulhas que no enxergo, mas o bordado  real. H sempre uma virtude que precisa ser bordada na vida da gente. No me descuido dessa 
arte.  dom de mulher que aprecio e ensino. 
  A comadre Laura sempre foi especialista nesse ofcio. Nunca abriu mo de bordar nos filhos o carter que recebeu do finado pai. Eu achava bonito o seu trabalho 
artesanal de amar as crias que ps no mundo. 
  O amor  um artesanato aprimorado.  com ele que o bordado ganha forma, ganha cores. Pudesse eu contar aos meus herdeiros o tanto que amei, a vida inteira que 
ainda me resta seria feita de discursos. 
  No sei se o amor tem fim. s vezes eu me conveno de que o que termina  o efeito, mas a causa est sempre l, pronta pra recomear. No sei se tenho alguma causa 
nas predilees de Loureno. Talvez ele nem saiba que o amor  feito de causas. Nunca ouvi de sua boca uma palavra que pudesse sinalizar o seu amor por mim. O que 
dele tive  muito pouco para me fazer concluir qualquer coisa. 
  Loureno continua partindo e chegando. Nunca sei ao certo se haver um estado definitivo, final. O pouco que fao, e disso no me descuido,  estar sempre pronta 
para abrir-lhe a porta para que chegue, ainda que por breves momentos. Mas, antes da porta, a alma. Preparo meu corao para receber o par de olhos que nunca me 
ofereceu certezas. 
  Loureno  meu jardim. Descobri isso quando me recordei do empenho que minha me tinha com suas sementeiras. Todas as sementes eram jogadas num mesmo vo de terra. 
Algumas floresciam. Outras no. 
  Ao semeador no cabe perguntas. Semear  seu oficio. A terra resguarda o segredo que ele tanto deseja saber. O jeito  esperar para ver o resultado. O tempo da 
espera  o tempo da f. Tempo em que os olhos, de vez em quando, se lanam na direo do silncio da terra para investigar se h algum vestgio de broto. 
  Vivo para essa investigao. Trago no meu corao a mesma mstica que os semeadores. O jeito  no deixar de lanar esperana sobre o cho da vida. Um dia o amor 
vai brotar com as ramas que tanto desejo. Enquanto isso, espero, e, enquanto espero, concluo: sou inacabada.  o amor que me faz assim. Sofro por ser incompleta, 
mas no posso fugir do encanto que essa condio me empresta. 
  Minhas ausncias no me deixam partir. Funcionam como ncoras que me prendem ao porto. No tenho coragem de encher os pulmes de ar para formular o meu grito de 
independncia. Diga ao Loureno que fico. Diga a ele que sempre ficarei. Eu no saberia buscar outro lugar sem que seus olhos proprietrios me acompanhassem. Ele 
 meu complemento. Disso no tenho dvida. Parece cruel, mas no .  nele que avisto a parte que falta. Sou de pedra. Serei sempre de pedra. Demoro para crescer, 
eu sei, mas ningum poder negar que toda pedra inspira segurana. A Sagrada Escritura nos sugere que a casa precisa ser construda sobre a pedra. No h chuva ou 
tempestade que possa separ-la de seus alicerces. Simo foi transformado em pedra. O homem que foi retirado das guas se tornou o porto inicial. Sobre guas ningum 
est seguro. Sobre a pedra, sim. Pois bem. Esta  a minha regra. 
  Olho para as minhas mos. O dourado do ouro ainda dura no tempo.  por isso que esta aliana que trago no dedo  sacramento que me recorda a necessidade de que 
o amor dure tanto quanto o metal precioso. 
  Meu amor continua durando, mas o amor de Loureno, no. E foi por isso que fiquei de pedra. Atacam-me os ofensivos, mas no dou corda pra essa pipa. Quero as ofensas 
noutros cus.  por ser de pedra que vou durar, e muito. 
   sina da pedra ser duradoura. Carrego nos ombros este destino. Aliana no dedo e pedra no corao.Vou arrastando este destino de no me perder da promessa. Enquanto 
isso, eu mimo a vida no que posso. Meu projeto  maior. Cansei de ver a desordem que o tempo me causa. O acmulo dos dias  um desconforto que prefiro esquecer. 
Estou fazendo um investimento nobre. Estou me preparando para ficar eterna. 
  Em branco
  A sacerdotisa
  Este lenol que alvejo  sacramento do amor que sinto por Norberto. Esta lida constante de quarar o que est amarelado  imperativo de minha condio de mulher. 
Voz que ouo em tonalidades diminutas, tristonhas, ordenando-me: "Clareia o mundo; retira a poeira das almas e endireita os caminhos humanos!". 
   nesta hora que encho as bacias de gua limpa e dou banho cuidadoso nos meninos. Um a um, polindo a carne que saiu de mim, ensaboando o mundo em pores de musculaturas 
midas, infantes, filhos de minha barriga. 
  Fao o que posso. Norberto  minha transcendncia horizontal.  nele que descubro o motivo do meu aperfeioamento. Lavo, passo, cozinho e tolero. Esse movimento 
domstico particular que me envolve atravessa os caminhos do mundo, esbarra na indignao dos que me reprovam e agua o desespero contido dos que me invejam. 
  Estou salva, concluo. Costura redentora que me ata nas bainhas de suas calas de homem e que me assegura no estar s. Sua presena em minha carne atinge tambm 
as necessidades de minha alma. Rezo diurnamente a orao de amor que a ele me congrega. 
  Tenho medo de perd-lo.  sempre assim. Amar  desatino que no passa. Desde os primrdios do mundo o amor se equilibra sobre o fio tnue da insegurana. Desde 
a expulso do paraso, quando a mulher assumiu a culpa do erro original, mostrando cedo sua sina abnegada de reorientar o homem torto de sua origem. 
  No sou eu quem vai mudar essa histria. Sou descendncia, no sou origem, nem tampouco tenho disposio para buscar uma palavra que explique a imanncia tortuosa 
de meus defeitos. 
  Norberto  meu, e disso no abro mo. Esse Ado empoeirado eu fao questo de manter na minha estante. Quando a poeira  demais, lustro-o para que volte a ter 
brilho. No  assim que Deus faz comigo? Sou sobrevivente da misericrdia. Deus morre de amor por mim! Ama at mesmo quando eu me perco no galpo de meus pecados 
no originais. 
  Estou eleita para todo o sempre. Esta certeza de estar redimida  que mantm a minha pacincia com o meu homem de barro. O amor humano  resposta natural ao amor 
sobrenatural. O sangue do crucificado me atingiu, afetou minhas convices e entrou nas minhas veias. 
  Nasci sob o sombreado da cruz. O motivo do calvrio de Cristo foi o primeiro aprendizado que minha me fez questo de me ensinar. Fiquei maravilhada. Recolhi na 
carne a mstica que havia em suas palavras to cheias de solenidade. Ela me fez compreender que a causa da morte estava diretamente ligada aos meus erros, mas que 
Nele, e por Ele, eu estava remida de minhas culpas. Transfuso de sangue. Retirou--se o sangue de Eva e foi colocado o sangue de Cristo. 
  A trgica morte de Cristo est amparada nos motivos de Seu amor por mim.  por isso que no tenho o direito de recusar minha misericrdia ao Norberto. O que Cristo 
fez por mim por ele agora o fao. O apstolo Paulo j anunciava que isso pareceria loucura aos olhos dos sbios. A cruz no  lugar de fraqueza, mas de coragem. 
Aquele que nela est pendurado no se entregou porque no tinha outra opo. Foi ato livre. O amor o conduziu ao Glgota. Ele fez opo pelos miserveis do mundo. 
Fez estada na casa de pecadores. Amou as esprias da humanidade e nos contou que Deus prepara um banquete farto para todo aquele que tem fome. 
  Ele retirou o vu do templo. Rasgou as cortinas preconceituosas de seu tempo e pediu que os envergonhados de seus crimes tomassem os primeiros lugares na festa 
da reconciliao. A cruz  a consequncia dessa loucura. 
  A loucura da cruz me faz ser louca tambm.  verdade. Sou louca de amor. Este amor me coloca em caminho nico, o perdo. No tenho como expulsar Norberto do banquete. 
No tenho argumentos para priv-lo de meu colo acolhedor, mesmo que ele esteja torto de tanto pecado. Negarei a ele o que Cristo nunca me nega? No posso! Seria 
o mesmo que negar a redeno que Dele recebi. 
  De vez em quando o calvrio se repete na minha casa. Assumo o lugar do crucificado. Norberto se pe aos meus ps e chora, humilhado.  nessa hora que minha condio 
grita alto. Eu sou o Cristo. A Eucaristia me configura assim. Mulher que se doa mesmo quando o que me recebe no cumpre a parte do trato. Deus no  menos Deus na 
boca do que merece menos. Deus no  menos Deus na parte que veio repousar na mo do indigno. A Eucaristia  o mistrio da continuidade de Cristo no tempo. Norberto 
sabe disso, pois no o deixo esquecer. 
  De vez em quando ele chega ressabiado, rabinho entre as pernas e olhinhos baixos, prprios de quem se arrependeu do que fez. Chega do mesmo jeito que chego ao 
confessionrio do padre Adamastor para lhe pedir indulto em nome de Cristo. Depois que conto tudo o que me escraviza, o padre levanta suas mos e faz sobre mim o 
santo sinal da cruz. O gesto me recorda as mos de Moiss a conduzirem os israelitas  abertura do mar Vermelho. 
  O sacramento me reconcilia, retira o peso da culpa e me faz voltar ao vio da virtude. O sacramento me recorda quem eu sou. Sou filha do Divino Pai Eterno, o proprietrio 
do mundo, cujo diabo  seu co amarrado. Depois do perdo recebido, saio de l renovada, desejosa de recomear uma vida nova, reassumir a graa da minha pertena 
a Cristo. No devo fazer o mesmo com o pobre do Norberto? 
  Norberto acredita no amor porque eu o amo. Sou o seu Cristo vivo, morto e ressuscitado.  com ele que repito os mesmos gestos que o Redentor realizou na vida dos 
que encontrou pelo mundo. 
  Quando o recebo cansado, estendo a toalha, despejo gua sobre seus ps andarilhos, errantes, e os perfumo com essncias raras. Deito a mo sobre sua cabea e recordo-lhe 
de que ele vale muito mais que todos os erros que j tenha cometido na vida. Depois de perdo-lo, preparo o banquete e me dou em refeio. Ele se emociona, chora 
e adormece redimido de todas as culpas. 
  O amor que sinto por ele no  cpia imperfeita do amor que Deus tem por mim? Ser que tenho o direito de lhe negar minha mo estendida, pronta para abrir o mar 
que o ameaa? 
  Norberto  o meu genuflexrio.  nele que minha alma est ajoelhada. Ele  o meu monte Tabor, lugar onde recebo os sagrados mandamentos. Ele  minha Meca, minha 
Jerusalm iluminada, minha escritura santa, minha terra prometida. 
  No h religio sem sofrimento. Da mesma forma como no h redeno sem calvrio.A lgica do que consideramos justo no se aplica ao amor desconcertante de Deus. 
Repito. Ele preferiu os piores; viu neles o lugar preferido para estabelecer sua tenda. A imanncia histrica de Deus  esse bando de miserveis que frequentam os 
subterrneos do mundo. 
  Eu tambm no compreendo isso, mas  por isso que tenho f. Se compreendesse, no precisaria ter f. No tenho tempo para teologias. S tenho tempo para o amor. 
Enquanto os padres ensinam catequese na igreja, estou aqui,  beira deste tanque, lavando essa mala de roupa suja. 
  Minha catequese  concreta. No lavo palavras. Alvejo as sujeiras do mundo a partir do meu tanque.  aqui que dou um jeito nas imperfeies que o diabo inventa. 
Comigo ele no pode. 
  J disse e volto a dizer: aqui em casa ningum precisa de padre exorcista. O amor  nossa arma, nossa orao. O diabo no suporta ficar no meio de pessoas que 
se amam. 
  Em branco
  A lei do amor
  Eusbio no quis admitir, mas sua dieta no o emagreceu nem um grama de quilo. Eu j desisti. Como bolo de fub com leite frio antes de dormir sem que nenhuma 
culpa venha me perturbar o sono. 
  A propsito, ando pensando que metas foram feitas para no serem alcanadas. Por isso so metas. S Rosinha Aroeira no pensa assim. Vive se gabando da disciplina 
que tem com sua dieta rigorosa. Enche a boca pra dizer que retirou o glten da alimentao. Fala como se todo mundo tivesse obrigao de saber o que  o tal do glten. 
Peguei uma implicncia danada dela por causa disso. Todo mundo est comentando esse enjoamento dela, mas ningum tem coragem de dizer. Eu escuto o discurso e fao 
cara de paisagem. Ando sem pacincia com gente disciplinada. 
  No posso negar. Estou vivendo na pndega alimentar. No estou nem a para os conselhos do doutor Giliard. Outro dia ele quis gritar comigo, dizendo que, se eu 
no controlar minha alimentao, terei um infarto fulminante. Em breve, salientou. Disse que minhas artrias esto todas entupidas. Olhei pra ele e cinicamente cantei: 
- Aquela nuvem que passa l em cima sou eu. Aquele barco que vai mar afora sou eu. - Ele quase me matou com o olhar marejado de dio. 
  Ando cansada da vida. Metade de mim tem sido desejo, e a outra metade  dor de cabea. Andei anos e anos  procura de um alento para o meu desconsolo com Jos 
Eduardo, mas a vida me ensinou que o amor s  possvel no dissabor. Mulher gosta de homem ordinrio. 
  Maria Alice passou a vida inteira sofrendo com um casamento que s lhe trouxe aborrecimento. Vinte e dois anos de humilhao e pequenas sesses de espancamento. 
Numa tarde quente de vero, tempo em que a coragem parece vencer o medo, encheu o pulmo de ar e mandou o homem embora de casa. Porque no valia nada, ele foi. 
  Apareceu Vicente Modesto, homem que o nome j revela o que . Dedicado, amante devotado, capaz de sacrifcios prprios de amor de conto de fadas. Gastava horas 
e horas de dedicao incomum aos calos dos ps de sua amada. Maria Alice tomou antipatia dele. Disse que ele era bom demais. 
  No entendi, nem ela. Perguntei o que havia de errado com o pobre do modesto, o Vicente, e ela engoliu em seco a vergonha de confessar que gostava era de maus-tratos. 
  Neurose? Pode ser que seja. H tantos despropsitos nessas histrias de amor que chego  concluso de que a paixo  uma enfermidade. Febre, dor no corpo, enjoo 
em fins de tardes, clicas matinais, no sei. Cada um sente ao seu modo. 
  J passei noites e noites em claro com uma queimao nas costas que no havia analgsico capaz de resolver. O jeito era sofrer.Virava noites e noites na cama e 
nada de pregar os olhos. Um belo dia finalmente descobri a causa. Estava apaixonada pelo Eustquio verdureiro. Pude perceber o despropsito numa de minhas idas  
sua barraca. Enquanto ele atendia a Solange Fonseca, senti que meu corao ardia de cimes. Precisei de quase um ano para perder aquela vontade desenfreada de ir 
procurar pelos seus repolhos e brcolis. 
   esquisito, mas o amor tem o poder de anestesiar as ambiguidades. Olhamos e no vemos a contradio. Talvez seja por isso que na calda do amor est o amargo do 
dio. Senti de perto esse gosto. Amei e odiei ao mesmo tempo. Amei pensando que odiava e odiei pensando que amava. Acordei no susto da curva. 
  Essa insanidade est por todo lado. Alguns se adaptam com mais facilidade. Descobrem a graa que h em comer uma macarronada no domingo, quando toda a famlia 
se rene. 
  Na sala, a televiso ligada no programa de calouros. O apresentador animadssimo repete sem apresentar sintomas de cansao a ladainha dos anncios comerciais. 
No sof principal, repousando o sono da tarde, est a sogra a provocar ruidosos barulhos de gases e roncos. O cachorro satisfeito lambe os ossos do frango sacrificado, 
enquanto as crianas se digladiam no quintal por causa de uma bola de capoto amarelado. 
  Juro que no quero esse inferno pra mim. Prefiro o meu lenol limpo, alvo, ravesseiros altos, macios e cheios de solido. Crianas, s no porta-retratos. So to 
lindas quando cheias de silncio! A voz presa no vidro, o olhar enclausurado na lente daquele instante, tudo to prximo do Jardim do den, de Eva imaculada, da 
pureza original, do tempo em que a vida ainda no conhecia o conceito mortal de culpa. Sogra no sof? S se for de pelcia. 
  Diolinda no sabe o que fazer com o remorso que sente. No teve coragem de chegar perto da me morta. Durante as catorze horas em que durou o velrio, ficou sentada 
num tamborete na cozinha da casa. 
  Eu j disse pra ela que no se apoquente com isso, mas de nada adianta.A culpa a come aos poucos nos temperos das lembranas. Dona Rufina no ajudou em nada. Usou 
aquela boca murcha para piorar ainda mais o sofrimento de Diolinda. Segundo ela, o morto no descansa se no receber, antes de ser enterrado, um beijo de cada parente 
prximo. Disse que a alma fica vagando. Diolinda ouviu a histria e teve uma crise de nervos. 
  Fico encabulada com o poder que os arrependimentos tm na vida humana. Padecimento insuportvel vive a Rosalva do Murilo Mendes. Dizem as ms lnguas que foi muito 
ordinria com o pai. O pobre do homem morreu sem sua visita. Terminados os procedimentos de sepultamento, Rosalva caiu em si. E caiu mesmo. Caiu tanto que no conseguiu 
mais se levantar. A crise de conscincia no lhe permitiu nem mais um rabisco de sorriso na vida. A amargura no rosto j a acompanha h mais de seis anos. Eu rezo 
por ela. 
  Confesso que tambm tenho minhas pequenas doses de culpa.Vez ou outra eu me pego com uma pontada culposa no rim. Uma caridade que no fao, um aniversrio que 
fao questo de esquecer ou ento uma folha de couve que nego. Mas minha culpa  passageira. Um sono depois do almoo e tudo volta ao normal. 
  Henriqueta Barbosa Vi eira  um angu de caroo. E dos grandes. Aprendi a expresso com minha me. Ela era especialista em desfazer caroo. Sempre dizia que a vida 
encaroada no compensa. E tinha razo.  por isso que no perco os conselhos que Eriovaldo Santamara d todos os dias no rdio, logo pela manh. Nunca botei os 
olhos na cara do sujeito, mas no dou um passo sem antes escutar o que ele diz. Ele  um locutor formidvel. Gosto da maneira como fala das pessoas que lhe enviam 
cartas. Sua fala to cheia de nimo parece retirar as pessoas do anonimato da vida. O nome comum, mas dito com nfase, tem o poder de elevar a condio do mencionado. 
Eriovaldo  especialista em tornar especial quem nunca foi. 
  Fico impressionada com a capacidade que Vernica do Incio tem de se alegrar. Da minha janela eu a vejo todos os dias com sua lida to ordinria. Enquanto prepara 
o almoo, d sempre um jeito de ordenar a sada dos meninos para a escola.Vida redimida e administrada, enquanto o arroz  refogado na panela de ferro. O fogo de 
lenha na cozinha arejada, paredes escuras de fumaa que no perdoa a condio alva da parede recm-pintada. O silncio da alma, o contentamento de mulher que no 
deseja outra coisa seno ver a prole de barriga cheia, o marido pronto pra voltar  lida, to cheio de disposio esponsal. 
   No sei o que  que se passa na cabea de Maria Alice. Bem que poderia ter domado a antipatia do marido. Antipatia todo mundo tem. Amor perfeito? S nos jardins. 
Rosinha mida que acho at sem graa. Prefiro a contradio das rosas. O espinho afrontoso no caule to cheio de poesia, a ostentao da textura aveludada, libidinosa, 
mas to pura ao mesmo tempo. 
  Perfeio  coisa de grego. Sou mineira demais para querer as caractersticas dessa arquitetura. Os traos que desenham minha alma so cheios de curvas imperfeitas. 
O perfeito  amrfico, s existe na projeo utpica. Eu sou real. O nariz sangrando  meu bilhete de amor. Que leia quem puder. Que leia quem souber. Outra coisa 
no considero mais urgente. Ou estanca o sangue, ou morre de pavor. Amor  a mesma coisa. S  possvel na condio de suporte. Duas partes que se atraem, mas que 
tambm se rejeitam. Lei esquisita que no sei quem foi que escreveu. S sei que vivo sob suas rdeas. Para sobreviver, fao o que posso. Obedeo. Quando o amor me 
chama, eu vou. 

  Alma em desordem
  Poderia ter sido diferente, mas no foi. Augurei o manto alvo da santidade at o momento em que minhas preces cansadas desistiram das escadarias imensas de minha 
vida sem gozo. 
  Pedi a Deus que desocupasse a minha alma, tal qual o proprietrio solicita o despejo do inquilino Inadimplente. Ele que v se abrigar nos Carmelos do mundo, nos 
eremitrios mais longnquos, j que nunca quis fazer graa na minha vida. 
   Quis o idlio mais que perfeito a conjugao de um tempo memorvel, que no merecesse o fatdico destino dos esquecimentos, mas o que recebi foi essa promissria 
de vida vencida, corrigida com juros e correo monetria. 
  Ser infeliz  condenao que recebo na carne. Di em toda a extenso do que sou. No, no me refiro  metafsica do ser, ao que de mim se desdobra em imaterialidades 
e conceitos. Falo dessa matria temporria que se encontra e se descobre dia a dia em processo de demolio silenciosa. 
  Olho para o passado e vejo meus fragmentos no destinos de minhas passagens. Registram-se em parede. vazias, camas desfeitas, praas que sofreram reformas, casares 
que ganharam outras serventias. A vida se desloca com voragem. 
   O olhar distante no se perde nos imensos retalhos desse mundo que me escapa. V perto, pela fora de alguma coisa que na alma tem responsabilidade de no me 
deixar morrer. Algo que traz em galopes, passos apressados, o que no canto da memria resolveu se abrigar. Traz e pe  mesa, faz banquete que apressa ainda mais 
a minha fome de ser feliz. 
  Mas essa fartura no me serve mais. Est tudo sepultado, ancorado nos pores das fotografias. O papel no segura o tempo. Os rostos que sorriem para o momento 
j se foram. Esto transmudados, tornaram-se outros, assim como eu. 
  Sofro de inconformismos. No aprendi a crena que nos coloca prostrados diante dos inevitveis processos de perdas que  vida pertencem. No deixo partir, no 
sei sepultar, no sei esquecer. No sou afeita aos discursos que gostam de amainar o broto que a clera desperta. 
  Grito a Deus desaforos sem que a culpa me acorrente a alma. Sobrevive em mim um janzaro que no se curva aos seus ditames e imperativos. Prossegue ferido, machucado, 
mas sempre disposto a uma nova batalha. Em suas mos repousa, constante, um par de armas empunhadas. 
  Esto prontas para o embate desumano. O Todo-Poderoso e eu. Dele no me esquivo. Ele tem as suas armas. Eu tenho as minhas. Perco toda vez que luto, mas no importa. 
No me disponho a ser o Isaac na mira de sua lmina. Do que eu gostaria mesmo  que ele me segurasse pela mo. O gozo que minha alma tanto desejou  que ele me conduzisse 
pelos caminhos que me entregariam s delcias de uma terra prometida. Terra onde eu pudesse reencontrar o sorriso de Homero, o amor que partiu e me levou de mim. 
  Homero chegou em minha vida numa tarde triste de inverno. O frio da paisagem sugeria aconchego de braos, presena de homem que me fizesse esquecer os tempos idos 
de solido e mgoa. 
  Chegou  cidade para gerenciar a construo da praa da matriz. Instalou-se na penso de minha me e, no mesmo ritmo com que fazia surgir a praa do meio das pedras 
e monturos, fez surgir em mim a certeza de que o amor  capaz de nos fazer nascer de novo. 
  A ele me dei como a obra se d ao seu autor. Aos poucos, em partes, em fragmentos de inspirao. Dei-me na obedincia de minhas regras, na disciplina espartana 
que me fez observar com calma o terreno que meus ps descobriam. 
  Meu descontentamento com a vida nascera comigo. Ouvir o bater da felicidade  porta, vinte e dois anos depois de conviver dia a dia com o destino infeliz de ser 
quem eu era? Demorei para acreditar. Olhava pela fresta da porta e o que via era o sorriso de um homem aparentemente incomum. Aos poucos fui abrindo espao para 
a sua chegada. De vez em quando eu me permitia ouvir suas histrias to cheias de futuro. Desejo de descobrir uma mulher que pudesse ser a me de seus filhos.Algum 
que ainda acreditasse na fora de um amor que pudesse ser eterno, definitivo. 
  Homero tinha fala fcil, fluente, certeira. Recordava--me os discursos religiosos que o pastor Rubens ministrava nos cultos dominicais. S que havia uma diferena. 
Ele me convertia aos poucos. No o escutava como oratria a ser admirada, fluncia de uma teologia bem estudada e transmudada em argumento humano. 
  Diferente do pastor, que me enchia a cabea de discurso requintado, Homero atingia a profundidade de minha alma com palavras simples e honestas. E foi diante desse 
anncio querigmtico, to cheio de gentilezas, que minha alma se prostrou compungida e disposta  converso. 
  E assim se deu. A confluncia de minhas virtudes e defeitos, a composio inexata de meus atrativos e vergonhas, tudo, o todo de minha condio humana, passado, 
presente e futuro, a ele ofertei como se cumprisse um ritual religioso. 
  Eu, a vtima feliz, amorosa. Ele, o homem santo, o enviado do cu a me receber em sacrifcio, elevando-me como matria a ser santificada. 
  Dei-me em processos interminveis de oblaes e sacrifcios. Dei-me em dor, dei-me em febre, dei-me em ansiedades pausadas por fraes de alegrias midas e inesperadas. 
Dei-me tanto que j no poderia mais prosseguir sem ele. Eu j estava toda nele, restando-me a sensao de que sem ele j no me restaria absolutamente nada para 
ser. A ele eu estava totalmente configurada. 
  O tempo de minhas esperas estava diretamente ligado ao trmino da praa. Foi uma mstica proposta por ele. Achei fabuloso o sentido de tudo aquilo. Ele me disse 
que a construo de pedra era sacramento de nossa construo espiritual. Nosso amor cresceu no mesmo ritmo das pedras. Por isso, o casamento foi marcado para o mesmo 
dia da inaugurao. s nove horas da manh, a inaugurao de pedra, e s seis da tarde, a inaugurao de nossas almas, momento em que assumiramos publicamente a 
fuso de nossos mundos. 
  Tudo estava pronto para o dia to esperado. A preparao material no era nada perto de todos os castelos que na minha alma eu j havia erigido. A praa da matriz 
era infinitamente inferior  praa que aquele engenheiro havia construdo dentro de mim. 
  O dia amanheceu pontilhado de sol. Da janela de nosso sobrado bem localizado pude ver ao longe a inaugurao. Diz a tradio que, no dia do casamento, no  bom 
que a noiva se encontre com o futuro esposo antes da cerimnia. 
  Homero estava bonito como sempre. Terno bem cortado, sorriso no rosto. Juntamente com o prefeito Justino Moura, cortou as fitas da inaugurao. A praa estava 
pronta, entregue. E eu tambm. 
  A festa seguiu animada. A banda municipal fez algum barulho at que a pequena multido foi se desfazendo e retornando para seus mundos. Da janela pude ver Homero 
se distanciando da praa. Ficou um tempo observando o feito de suas mos e depois, aos poucos, foi tomando um rumo que no era o da penso. Pude observar que de 
vez em quando ele parava e voltava o olhar para a praa, como se dela se despedisse definitivamente.
  Essa  a ltima lembrana que tenho dele. Nunca mais o vi na vida. Sem ser encontrado para dizer motivos e razes, no compareceu  segunda inaugurao. No veio 
cortar as fitas que me separavam de minha terra prometida. Fez-me morrer, assim como foi o destino de Moiss antes de colocar os ps na terra em que sua promessa 
me fez acreditar.
  Desde ento paira sobre mim uma nuvem espessa que nunca mais permitiu a passagem do sol. Estado de noite que na alma no termina. Converso que me levou ao absurdo 
do abismo e me entregou nos braos da descrena e da desolao. Comigo foi diferente. O meu Abrao no mudou de idia. Desceu a lmina sobre minhas esperanas e 
no teve misericrdia de mim. Deus no gritou antes, ou foi ele que no quis obedecer  ordem superior, no sei.
  O que sei  que h em mim uma praa abandonada, preparada para uma festa que nunca aconteceu. A fita estendida ainda pende desejosa de corte. Vez em quandoo vento 
agita o ambiente. Corta o horizonte escurecido pela tristeza e ilumina o espao com fragmento de alegrias que aos belos tempos da construo pertencem.
  E ento eu sorriso brevemente.

  Cheia de graa
  Ediolinda  um ser humano memorvel. Maravilha-se sem restries. Alcana profundidade e motivos para o riso que nunca imaginei existirem. Dizem que nasceu predestinada 
a sofrer de alegrias. 
  Chegou ao mundo nas primeiras horas da manh do sbado santo, momento em que os alecrins so retirados do esquife de Cristo e a esperana da ressurreio procura 
espao para se abrigar nas frestas das almas distradas. Pois encontrou na alma de Ediolinda. Encontro definitivo, registro de carter, revestimento existencial. 
  O fato  que Ediolinda j nasceu diferente. H quem testemunhe que, mesmo sofrendo os malefcios normais da primeira fase da vida, a criana nunca chorou. Nem 
mesmo o tapa inaugural que todo recm-nascido recebe, ao ver pela primeira vez as cores do mundo, despertou o choro da infante to frgil. A parteira que acompanhou 
seu nascimento contava, cheia de admirao, que a reao da menina foi distinta. Ao invs de choro, um riso. 
  A vizinhana que a viu crescer afirma que desde mida Ediolinda j trazia nos lbios os traos bordados de seu sorriso perene. Nascida numa famlia fadada a um 
contexto de extrema pobreza, viveu as restries sem sofrimentos e lamrias. Dispunha de si de maneira admirvel. Possua-se com facilidade. Isso fazia com que Ediolinda 
no perdesse o foco de ser feliz. Administrava a vida com mestria. Tinha sempre diante dos olhos um motivo superior. No se perdia nas razes mesquinhas que nos 
seduzem com facilidade. 
  Mesmo entre os no religiosos, e at entre os incrdulos confessos, h quem diga que ela nasceu preservada do pecado original. Verdade ou no, o fato  que Ediolinda 
parece revesti da de uma aura sobrenatural. No, no me refiro s imagens que encontramos nos altares da f catlica, lugar onde a santidade est diretamente associada 
a rostos tristes e expresses sisudas. Falo do sobrenatural que ao sorriso pertence, da leveza que nos faz esquecer que a vida  fardo e nos empresta a possibilidade 
de um breve esquecimento dos aoites que nos amedrontam. 
  Ediolinda s tem tempo para ser feliz. No se desperdia em outros caminhos. Parece viver absorta em constante satisfao. A cara larga e morena  o territrio 
onde intumos tudo isso. Os olhos redondos, bonitos, cheios de vio, anunciam que naquele corpo a vida  bem-vinda. A boca que vive cheia de cantos nunca se entregou 
ao poder de falas pessimistas. A qualquer hora do dia ou da noite, uma boa notcia pode ser cantada, porque no corao de Ediolinda h sempre uma esperana sendo 
gestada. 
  Ela  uma mulher prtica. No h registro de angstias em sua longa trajetria humana. Casou-se jovem, mida, sem nenhum florescer biolgico de maturidade. To 
primria era em seus destinos de mulher que nem mesmo a menarca inaugural havia lhe escorrido das entranhas. Adentrou a igreja imersa num sorriso puro, que, se pudesse 
ser identificado em cor, seria de jambo. Um sorriso capaz de fazer sorrir tambm at aqueles que sofriam de tristeza crnica. 
  Virgem no corpo e nas intenes, Ediolinda correu o pequeno corredor central da matriz como se destinasse o corpo ao encontro de um brinquedo reencontrado depois 
de um longo tempo perdido. Sorria maravilhada com os movimentos do vestido. Breve balano de sedas repousadas sobre anguas amplas em sobreposio. 
  O sorriso daquele dia no sofreu alteraes.  com ele que Ediolinda recebe Olimpo, embriagado, em seus retornos nas tardes de sbado. Ela o recebe sem demoras, 
sem esbarros de conflito. Toma-o nos braos, enrosca-o em suas pernas, puxa pela camisa, pela franja escondida que o amor faz questo de preservar. 
  Muitas vizinhas lhe diziam conselhos. Achavam absurda aquela tolerncia. Gritavam exaltadas, cobertas de razes. Olimpo era um homem abominvel. Na aparncia e 
no carter. Qualquer pessoa de bom-senso seria capaz de reconhecer a discrepncia que existia entre os dois. Aquele homem no merecia aquela mulher. Era nobre demais 
para ele. 
  Todos assim pensavam. Menos ela, que ouvia atentamente tudo o que lhe diziam, mas depois agradecia com o mesmo sorriso enigmtico e desconcertante que ainda tem 
tatuado nos lbios. 
  O motivo  simples. Ediolinda no se ocupa de filosofias. Nas propores midas de seu mundo no h espao para os sofrimentos do pensar. O que h  o constante 
movimento da gua a distrair-lhe os dedos, quando no oficio de quarar o encardido das roupas ela encontra as razes para a sua alegria. O que h  a trama do cotidiano 
e suas perguntas to urgentes. Ediolinda resolveu responder sempre do mesmo modo: alegrando-se. No se ocupa de outras possibilidades. Em sua vida h uma nica via. 
E por isso no h conflitos. J est decidida que viver para ser feliz. 
  O sorriso de Ediolinda  incmodo constante  vizinhana triste, aos afeitos  angstia que nasce dos limites da alma, quando a fora do desejo  atropelada pela 
dureza da realidade. 
  Mesmo em dias de acontecimentos trgicos, como por ocasio da morte das meninas gmeas de Heliodora Rufino, dia em que a pequena vila de Dourado da Pedra pranteou-se 
de tristezas, naufragada nas causas absurdas do afogamento, Ediolinda no se desfez de sua admirvel serenidade. O preto do vestido no aplacou a brancura da alma. 
O obscuro da morte, a frieza dos corpos das meninas, o abatimento dos rostos, a vila inteira adormecida e embrulhada nos invlucros do absurdo, menos ela. Mesmo 
no sendo indiferente ao coletivo desespero, Ediolinda manteve no rosto um sorriso brando, calmante e terno. 
  Fico intrigada com o modo como ela ajeita as desordens do mundo dentro da alma. Pudera eu tambm ser assim! Perco o prumo por to pouco. Desvio-me da felicidade 
por qualquer sopro de vento. Amarguro-me por mnimas razes, perco o sono, perco a paz. No tenho todas as graas de Ediolinda. No tenho seu riso, no tenho sua 
aura, nem suas esperanas. 
  Entre ela e mim paira uma distncia que no h ponte que possa vencer. No h estradas que possam me levar  condio humana dessa mulher to memorvel. Ser que 
Ediolinda  o resultado de, uma evoluo humana a que estamos todos destinados? Ser ela uma presena proftica, antecipao no tempo de tudo aquilo que esperamos 
encontrar na eternidade? No sei, nem espero saber. Ediolinda  to indecifrvel quanto os segredos do mundo. 
  Sacerdote catlico, cantor, compositor, professor universitrio, escritor e apresentador de rdio e TV. Padre Fbio de Melo nasceu em Formiga (MG), em 3 de abril 
de 1971. Tornou-se nacionalmente conhecido por seu trabalho como comunicador, sua obra compe-se de 7 livros publicados e 11 CDs que, juntos, venderam mais de 1,8 
milho de unidades.
  Mestre em antropologia teolgica, foi ordenado em 2001 e atua na diocese de Taubat, interior de So Paulo.
  O ttulo Mulheres Cheias de Graa traduz a sutil atmosfera de ambiguidade que permeia os contos deste livro. "Graa", ensina o dicionrio, relaciona-se a ddiva, 
favor, bno, pureza, elegncia e comicidade, entre outros significados - uma multiplicidade de sentidos refletida no caleidoscpio de personagens montado pelo 
autor. Jovens, maduras ou idosas, ingnuas ou reflexivas, romnticas ou amargas, sensuais ou nostlgicas, as vozes narradoras desfiam histrias que, de alguma forma, 
enveredam pelas diferentes definies da "graa". Com notvel talento, o autor impregna as personagens femininas de eloquente legitimidade, criando um painel de 
situaes que tem como pano de fundo a busca humana pela graa maior da transcendncia. 